Arquivo mensal: fevereiro 2014

Palavras doces e doces palavras

Palavras doces e doces palavras

Qual será a diferença
entre palavras doces e doces palavras?
Açúcar, chantilly, chocolate, como se classificam?
Amor, carinho, abraço e compreensão, então?

Qual será a diferença
entre doces palavras e palavras doces?
Encanto, beijo, educação e gentileza
adoçam o seu cafezinho?
Bombom, bolo de creme, pudim de leite
conseguem encantar um coração quebrado?

Elogios e verdades ditas gentilmente
como se consideram?
Um pedaço de bolo quando se está triste, ambrosia quando chegam visitas e geleia num pedaço de pão?

Não diferencio uma da outra, as coloco no contexto.
As que vem com um sorriso, brilho nos olhos são as mais doces,
mas me alento com as acompanhadas de um longo abraço ainda que delas resultem a ideia de um não desmotivado.

Pra ser feliz (poeta Osvaldo Montenegro)

Pra ser feliz
Não da pra olhar pra trás
Pro que foi, pro que quis
Mas não foi possível
Pra ser feliz
Não da pra consertar
Já quebrou, já partiu
Foi o tempo e o seu véu
Pra ser feliz
O sol inunda a nova estrada
E alguém vai te encontrar
Pra ser feliz
A noite vira madrugada
E a chuva vira mar
Pra ser feliz
Não dá pra retornar
Reaver, segurar
O que foi bonito
Pra ser feliz
O mundo vai girar
E você vai gritar
O que não foi dito
Pra ser feliz
A tua cara vai ser nova
E os olhos vão mudar
Pra ser feliz
Não tem que haver nenhuma prova
Valeu e valerá

Chuva e janelas abertas

Chuva e janelas abertas

Acordo.
Meu primeiro pensamento é abrir a janela.
Descortinar a escuridão do quarto,
Iluminar o corpo e a alma.

Acordar nublado, não me cabe,
Não poder deixar entrar o ar renovado, me angustia.

Sei que domingos chuvosos são maravilhosos.
Há descanso, há preguiça.
Há o enroscar como gato no travesseiro,
O se enrolar nas cobertas esperando o dia passar.

Mas nada disso me alcança,
sobrevivo aos dias chuvosos,
mas fui feita para escancarar as janelas.

Chegar em casa e viver

Cada pessoa tem um ritual diferente para descansar no fim do dia. Uns chegam em casa e vão pro banho, outros vão pro sofá. Tem quem vá pra cozinha, tem quem vá caminhar. Uns vão pra academia malhar, alguns vão pro bar.

Eu tenho um pouco de cada, dias de sofá, dias de banho. Dias no parque, na academia, poucos no bar, mas já tive dias de chegar e dançar.

Dancei muito com meus filhos. Minto, dancei muito “para” eles. De médica e louca cada mãe tem um pouco. Mas vendo hoje este vídeo me deu vontade de retomar a prática. Chegar, largar a bolsa na escada, abrir espaço afastando o sofá, as poltronas e a mesinha. Ligar a música bem alto e sair dançando, saltitando e me divertindo.

Creio que não vou conseguir companhia no meu momento felicidade dos demais habitantes da casa. E, acho também que ficarão felizes por eu ficar dançando na sala, sem querer aproveitar a brisa leve vinda da Chapada que entra pela sacada.

Ratatouille e o Parque

Quem assistiu o filme Ratatouille conhece a cena onde o crítico culinário ao experimentar o ratatouille preparado pelo cozinheiro (com seu ajudante rato) alcança na  memória a comida caseira que sua mãe preparava. A imagem da lembrança gustativa dele é ótima e a emoção que ele alcança naquele instante consagra a culinária do “chef”.

Acabo de vivenciar o mesmo desdobramento de memória que o crítico teve naquela cena. Estava caminhando no parque (sim, 35C às 17hs e eu estava caminhando no parque) e na trilha estreita perto do casarão tem uma árvore que solta uns coquinhos. Eu não sei o nome da árvore (não vi um coqueiro), mas os coquinhos parecem butiás.

A trilha está cheia deles e o aroma é inebriante. E foi este aroma que me remeteu à minha infância, numa casa que parecia um castelo de conto de fadas, rodeada por um jardim repleto de canteiros, com rosas, cravos, amor-perfeito e outras flores que não lembro o nome.

Entre estes canteiros, mais para o canto de trás da casa, junto a uma pequena horta,  havia  alguns  coqueiros – dois ou três – , que soltavam coquinhos amarelos, fibrosos e meio azedinhos, mas mais que azedinhos e deliciosos, tenho em minha memória o perfume daquela frutinha tão simples e que nunca soube que se aproveitava para nada a não ser comer escondido (até esta semana, quando vi na tv uma receita de badejo com calda de butiá) , pois minha tia-mãe não gostava que os comêssemos (e quanto mais ela brigava, mais comíamos escondido quando ela saia, eu, meus irmãos e primos).

Quando dei por mim estava eu parada no meio da trilha. Em um  pequeno lapso de tempo – nem sei dizer –  muitos anos de lembranças e um quê de saudade. Saudade daquela casa que sempre me foi aconchegante e misteriosa ao mesmo tempo. Saudades das varandas (tinha 5), onde encenávamos teatrinhos e brincávamos quando chovia lá fora. Saudades de um socavão (como eles chamavam o espaço entre as paredes e o telhado que era bem inclinado, como nos castelos) – um sótão – que circulava parte do andar superior da casa e servia de depósito, milimetricamente arrumado e repleto de malas, apetrechos de casa, revistas e livros que não encontravam mais abrigos em outros armários,  além de ser o esconderijo do Papai Noel, que ela nunca desconfiou que soubéssemos.

Saudades de uma tia briguenta, braba – muito braba –  e do tio-pai, calmo, careca, incapaz de dizer um não para nossas traquinagens, mas que ao mesmo tempo me amavam de todas as formas possíveis que podiam. Saudades de a casa chacoalhar quando os caminhões passavam pela rua Tapajós que ainda não era asfaltada e toda de paralelepípedos desnivelados e aquele movimento fazer parte do ritual noturno para pegar no sono.

Mas foi um atleta de domingo que passou por mim, parada e tão longe da realidade, que me trouxe de volta a Cuiabá, Parque Mãe Bonifácia, 2014. Continuei a caminhada com um sentimento bom, não de saudosismo -Oh, como era bom aquele tempo!, mas o de gratidão por tê-los vivido e estarem em um canto especial do meu coração e terem sido tão prontamente resgatados ao perfume de butiás maduros e pisados no chão.

Cenas do Cotidiano: Sinaleiro e fio dental

Cá estou eu, parada em um sinaleiro, seguindo meu destino do sábado. Eis que para uma enorme de uma caminhonete ao meu lado (fazendo a terceira fila, já que  com aquele carrão não há porque o motorista respeitar que só tem duas pistas). Percebo que ele gesticula largo dentro do carro. Mais uns segundos noto que aquela movimentação toda era o distinto senhor cortando um fio dental e agora, calmamente, em pleno trânsito da cidade grande, lá está ele, fazendo sua higiene dental. Fio de dente pra lá e pra cá. Como o sinaleiro abre, mas é de um dos desvios das obras da Copa, não andamos. Ele, creio, até fica feliz, pois dá tempo de terminar todos os vãos e caminhos por onde se deve limpar.

Buraco Negro, worm hole ou simplesmente idade?

A ideia de ler mais de um livro e alguns artigos ao mesmo tempo sempre me pareceu interessante, embora sofra alguns percalços durante minhas empreitadas. As vezes me apaixono mais por um livro e acabo não dando atenção aos demais, que ficam relegados à prateleira. Outras vezes alguns personagens do livro 1 roubam a cena, enquanto a história do outro livro seja “melhor”. E as vezes tenho que dar total atenção a um livro técnico, e este consegue também me prender completamente. Mas, pior de tudo é que, algumas vezes, dando atenção a um dos livros, não consigo lembrar onde larguei ou abandonei o outro. Esse é meu “drama da vez”. Já virei a casa, as bolsas, prateleiras de marido e filha e nada. Estou sentindo que trai o personagem principal do “El comité de la muerte” do Noah Gordon, em detrimento ao best seller “Inferno” que já estou vendo no cinema, embora não consiga imaginar quem vai fazer a mocinha da história. Mas voltando ao livro sumido do fim de semana, será que ele, por vingança, se desintegrou e vai me deixar curiosa e preocupada? Ou, na teoria do Buraco Negro, foi para lá que ele foi sugado? Caso ele não apareça ou se faça visível logo, no joguinho do facebook de listar 10 livros que marcaram a vida de cada um, ampliei, pelas indicações dos amigos, minha lista de leituras imediatas e futuras. Já tenho alguns títulos baixados, e por mais que meu coração doa de saudades dos médicos do hospital onde se passa o romance sumido, a vida e a curiosidade continuam, e lá vou eu!

Cena mais que cotidiana

Meu primeiro “post” oficial é uma homenagem a Drummond, que conseguiu traduzir em palavras o aconchego e o sentimento de “lar”:

“Casa arrumada é assim:

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa

entrada de luz.

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um

cenário de novela.

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os

móveis, afofando as almofadas…

Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:

Aqui tem vida…

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras

e os enfeites brincam de trocar de lugar.

Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições

fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.

Sofá sem mancha?

Tapete sem fio puxado?

Mesa sem marca de copo?

Tá na cara que é casa sem festa.

E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.

Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.

Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,

passaporte e vela de aniversário, tudo junto…

Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.

A que está sempre pronta pros amigos, filhos…

Netos, pros vizinhos…

E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca

ou namora a qualquer hora do dia.

Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias…

Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…

E reconhecer nela o seu lugar.”

Cenas do cotidiano

Há tempos venho postando de maneira um pouco peculiar, no facebook, sobre pequenos acontecimentos, divertidos ou não, que me sucedem. Posso dizer que “algumas coisas só acontecem comigo”. Ainda bem! O que aconteceu e o que continua a acontecer é que me fazem ser o que sou e no final, tudo é sempre positivo. Até a virose medonha que rondou minha casa esta semana. Nada como todo mundo “doente” em casa para estreitar o convívio familiar. Agora é deixar registrado neste outro caderno. E, além disso, deixar um pouco do que gosto, do que ouço, do que discuto, leio, assisto. Opiniões despretensiosas (ou não).