Arquivo mensal: maio 2014

La luna

Acabei de assistir novamente este vídeo, e fiquei aqui pensando como seria pescar estrelas.

Se eu tivesse este dom além da imaginação, acredito que pescaria não só estrelas.
Gostaria de pescar o som do mar, para tê-lo sempre junto durante as tardes encaloradas de Cuiabá. Pescaria ainda o ar salgado das caminhadas na praia cedo pela manhã, ou as conchinhas da beira mar no fim da tarde.

Pescaria as flores dos lugares por onde já viajei. Flores de verão, flores de inverno. Flores diferentes que nascem apenas nas montanhas, outras só na serra. Algumas com cara de flores, outras com jeitão de matinho.

Pescaria o abraço de inúmeros amigos que a distância impede do contato frequente.
Lançaria uma rede – só no anzol não poderia – para pescar as conversas com minhas irmãs, com todas as besteiras, risadas, choros, e até fofocas pra ter sempre ao meu lado quando a saudade aperta.

Com um algodão eu tentaria pescar a garoa gelada das cachoeiras da Chapada, a luz que bate nas montanhas vermelhas e ilumina meu coração todas as vezes que passo naquela estrada.

Gostaria de pescar ainda meu deslumbramento quando vi a floresta do Yosemite Parque e suas rochas brancas. Ou, mais ridículo que isso, minha volta à infância quando assisti o desfile da Disney com os personagens que habitaram meu coração por tanto tempo. O barulho das sirenes em Paris, e o nheco-nheco do caminhar nas areias no nordeste.

Pescaria também para guardar em um baú de veludo a mistura de sentimentos que acompanharam os partos – a primeira vez que olhei pros meus filhos, quase me arrebentando de emoção.

Há tanta coisa para ser pescada, umas poéticas, outras nem tanto. Mas gostaria também de pescar algumas pedras do meu caminho, para lembrar que elas que me construíram e me transformaram no que sou e no que ainda poderei vir a ser. Algumas lágrimas poderiam se tornar pingentes; algumas mágoas em páginas passadas.

Espero que ainda pesque muitos sonhos. Que haja puçá suficiente para guardar novos projetos.

De qualquer forma pescaria também a lua, esperando com isso alguns eclipses. E certamente pescaria estrelas, para presentear os amigos ou simplesmente jogar para cima quando a vida parecesse precisar de um pouco mais de brilho.

 

 

Andares de outono

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Conservei seus passos de inverno por estações seguidas.

Cruzei campos, asfalto, armários, latas de lixo.

Gastei as solas, descasquei o bico.

Subi escadas, escalei montanhas, chutei paredes.

Tropiquei, tropecei, escorreguei e me escondi.

Anos no fundo da prateleira, não aguentava mais.

Me senti revigorado ao ter novo caminho,

novos rastros, uma forma diferente de vestígio,

novo propósito, outro destino.

Um muro pra descansar, mas de um modo enfeitando

todas as andanças deste outono

em novas flores, delicadas cores e na natureza, um novo perfume.

 

 

 

 

Portas

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Se Abertas, Liberdade.

Se Fechadas, sem atrevimento.

Se Abertas, sol entrando.

Se fechadas, chuva lá fora.

Se abertas, ar renovado.

Se fechadas, bolor rescendendo.

Se abertas, pensamentos soltos.

Se fechadas, recolhimento.

Quando abertas, descobre-se o mundo.

Quando fechadas, busca-se o silêncio.

Quando abertas, vê-se o dia.

Quando fechadas, o leito.

Podem ser lindos portais ou pequenas tábuas,

Podem ter vidro, campainha e capacho.

Verniz quebradiço, tinta descascada.

Passa o tempo, lustra-se com cera.

Mesmo trocadas os ciclos se repetem,

É liberdade, recolhimento, luz interna, e silêncio.

Portas de casa, de carro, elevador e armário.

Portas da mente, de coração em movimento diário.

Melhor não usar trancas, apenas chaves.

Mantendo seguras as figuras do imaginário.

Lua cheia

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Quando sobe ao céu tão majestosa,

parece insana de tanta beleza.

Caminhando perdida em sua luz faço um agradecimento

pela vista, pelo encantamento e por sua imponência.

Melhor ainda que a luz do bairro se apaga, um blecaute em sua reverência,

para que se possa desfrutar melhor este momento.

Volto pra casa andando maravilhada.

Pra que postes e energia elétrica se a noite está por si só iluminada

Fazendo a noite parecer encantada?

Há pessoas paradas nas calçadas,  que esperam a volta da energia.

Entretanto percebem  nesta escuridão iluminada,

a lua cheia que na cidade passa sem ser notada.

E em troca comemoram que um pouco da falta de eletricidade,

possa acordar para outro tipo de beleza na cidade.

Cartão de Dia das Mães

Cartão de Dia das Mães

Há muito tempo não escrevo um cartão de dias das Mães ou dou um telefonema para parabenizá-la. Estava pensando agora pouco o tempo que fui filha e mãe da minha própria mãe.
O destino se revelou duro (não mau) com ela. Quatro filhos pra criar, todos entrando na adolescência e com exigências diversas, mas tínhamos os quatro mil responsabilidades, assim como a confiança dela e liberdade para algumas cabeçadas.
Minha mãe foi uma pessoa forte, tipo leoa mesmo. E de outro lado de uma fragilidade de cristal belga. Um rosto lindo e uma fisionomia cansada. Não passou dos 12 anos. Ai de alguém que perguntasse a idade dela. Foram micos e vexames por conta disso que daria um livro só deste assunto. Até hoje quando perguntam que idade ela teria (ela responderia 12), eu faço conta, e pior, não somo com a minha idade e sim com a da minha irmã mais velha e acrescento dois… estranho isso.
Mas voltando ao cartão. O que eu escreveria, agora na minha idade, já mãe de adultos também?
Escreveria que ela foi o modelo – positivo e negativo; correto e incorreto; de bondade e de brabeza; de liberdade e de cobrança.
Talvez tenha puxado dela o gosto pela escrita; ela sem exibir, eu já na internet. Um pouco do gosto pelas artes, apesar de jamais ter conseguido desenhar como ela fazia. No campo da música me faltou o gene… Conta a lenda que ela tocava violão clássico, violino e acordeão (esse eu a vi tocar); mas com quatro filhos em escadinha e uma casa pra sustentar, na nossa não teve tempo para muitos saraus. Então foram poucas vezes que a vi, ou melhor, que me lembro de vê-la tocar o violino maravilhoso que tinha em casa (quem ficou com ele?) e o violão, este sim era intocável. Triste que no sentido de nem nós, e nem ela.
Minha mãe era uma comédia na cozinha. Nem ovo fritava. E é onde a uso como modelo também. Queríamos tanto bolos e doces, pratos diferentes e os comuns que as outras mães cozinhavam, que desde cedo todos nós cozinhamos em casa. Cedo mesmo! E a geladeira dela, pros anos 80 já era um atentado à saúde pública. Minha mãe foi a primeira “viciada” em Coca- Cola que conheci. E como era bom! Não tinha água gelada a não ser na torneira (lá a água de torneira é sempre geladinha), água fresca no filtro, mas sempre teve coca e doce de leite (até o de leite condensado feito na panela de pressão) na geladeira. Atualmente ela seria banida pelos posts de dieta e de comida saudável.
Fomos um caso sério de “delivery” ou buscar comida fora para aquela época. Desde que ela não precisasse fazer, que “viesse a pizza!” Até hoje não posso ver “língua com ervilha” (prato comum em Curitiba) que me vêm lágrimas aos olhos. E churrasco então… Quem nos via acharia que éramos gaúchos de tanto buscar aos domingos.
E quando ela triste, eu virava sua mãe. Bom, nós 3 viramos mães da mãe.
Ainda não sei o que escreveria. Creio que contaria da saudade que sinto. Das tantas conversas que tivemos na minha imaginação desde então. De como ela fez falta em momentos marcantes nos últimos 10 anos. Mas isso a entristeceria, com certeza. Então seria melhor lembrar das coisas alegres que passamos juntas; do grito LUGIGIGÊ pela janela, já que não havia celular e elevador no prédio; de perguntar se na era mesozoica já existia alguma coisa, mas de fato, o melhor cartão seria tê-la aqui, para poder abraça-la, e dizer ainda que tardiamente que ela foi GENIAL.

Sorte

Peguei uma palavra ao léu para idealizar o tema.

Qual não foi minha surpresa ao vê-la escolhida,

pois nem sei se sorte eu tive e como farei para descrevê-la.

Posso dizer que é ter o peito aberto,

que é sincronicidade divina?

Lanterna no escuro,

milho de pipoca novo na prateleira?

Conhecer alguém lendo seu livro preferido;

quando cansada ter vinho gelado na geladeira?

Ainda não achei as palavras certas pra descrever o que seria.

Tiger Woods disse uma vez: “quanto mais treino mais sorte tenho.”

Ao contrário de Buda, para quem “às vezes não conseguir o que se quer é uma tremenda sorte”.

Penso que sorte seria ter o dom da poesia,

uma rima constante, a palavra adequada uma alegria.

Ainda estou longe do que busco

e terei sorte se conseguir até o fim do dia.

 

 

 

Paciência – Lenine

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para…
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara…
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência…
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência…
Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara…
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não…
Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara…
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para…
A vida não para…