Arquivo mensal: agosto 2014

Causos de viagem – Café da manhã com emoção

Quase  no final do século passado (engraçado isso) fomos em dois casais para a Califórnia visitar um outro casal de amigos que estava se formando no MBA que fizeram por lá.

Depois das comemorações relativas à formatura, alugamos uma van e fomos os seis viajar um pouco pelo estado, chegando até Nevada.

Aproveitamos para conhecer o Parque Nacional de Yosemite, um lugar maravilhosos, onde foi gravado o Ultimo dos Moicanos, com suas montanhas cinzas que conforme a luz do dia parecem brancas e ciprestes.  Como bons turistas fizemos passeios nas trilhas, compramos lembrancinhas, vimos esquilos, águias, e ficamos deslumbrados com tamanha beleza.

yosemite

 

Ficamos em um hotel super gracinha na cidade próxima ao parque e foi lá que nossa aventura ou “mico” aconteceu.

O hotel oferecia um café continental no seu breakfast. Nada como nos nossos hotéis nacionais. Laranja, grapefruit (nossa desconhecida toranja) e maçã eram as frutas oferecidas; dois tipos de pão fatiado, café, achocolatado, chá e leite. Ah, podia tomar água também.

Os hóspedes na época eram maioria americanos mesmo, e nós seis brasileiros. Não se viam os asiáticos que agora dominam qualquer lugar turístico pelo mundo todo, comentário este que  não tem nenhuma importância  no contexto da história.

Não sei qual dos homens do nosso grupo resolveu comer torradas e colocou duas fatias de pão na torradeira que havia sobre  a mesa, ao lado dos pães.  Eu ainda não havia saído do quarto, sei lá porquê, pois sempre acordo cedo e faminta.

As torradas, segundo conta a lenda, teriam ficado brancas, o que levou o devorador de torradas, a repetir o processo na torradeira enquanto tomava seu todinho.

Eis que estou saindo do quarto quando ouço o  alarme soando pelo hotel e os hóspedes saindo de seus quartos  de pijamas, outros levando as malas, até que de forma muito organizada, mas todo mundo assustado com o princípio de incêndio segundo falavam.

Vamos para fora, hóspedes e funcionários, quando somos informados que não havia incêndio algum, que um dos hóspedes havia esquecido as torradas na torradeira e que a fumaça produzida, por conta de tão tostada que  ficou, havia disparado o sensor de fumaça acima da mesa e disparado o alarme.

Volta todo mundo para seu mundo. Os de pijama pro quarto trocar de roupa para tomar o café da manhã; os funcionários para seus postos e nós seis para o breakfast room tentar parar de rir e  o “culpado não identificado” terminar o todinho, agora sem torradas.

 

 

 

 

Anúncios

Revelação – Géci de Castro Benatto – minha mãe

tâmaras

Guardai esta semente.

Quando tudo parecer perdido,

olhai-a com atenção.

Também ela parece não ter mais nada em si,

como a vida que vos parece vazia e sem nexo.

Dedé está perplexa. Por muito tempo

havia pensado no enigma que lhe fora dado solver

e que não conseguira.

A semente da tâmara seca por

tantas vezes estivera tateando levemente,

enquanto fazia conjeturas, deixara

de ser uma simples semente inútil , para

se tornar um símbolo de renovação e de esperança.

O mestre voltou.

Uma vez mais, pede tâmaras e mel, que todos saboreiam.

Restam as sementes.

  • Filhas, prestai atenção nesta semente.

A tâmara, símbolo da produtividade espontânea,

nasce de uma pequena semente como esta.

O fruto, ao cair na areia do deserto,

muitas vezes encontra abrigo sob outra camada de areia.

É aí que, encontrando as condições propicias

para iniciar seu ciclo  de evolução vegetal,

germina, transformando-se em uma nova tamareira.

Dum mínimo de areia germina, desenvolve, frutifica.

Mas o que eu quero realmente é chamar a atenção

sobre a fruta que cai

e não encontra guarida na areia, ficando sobre ela.

Este fruto receberá toda a inclemência do calor do sol

durante o dia, e à noite a intensidade do frio do deserto.

Apesar da adversidade das condições,

gera o seu próprio açúcar e se conserva

saboroso e nutritivo por muitos e muitos anos.

Ao ser comido, resta a semente seca, pela qual ninguém dá nada.

Se esta mesma semente, já seca, for jogada no deserto,

Lá permanecerá estéril até o dia em que um viajor,

sem se importar com aquela ponta na areia,

sobre ela faça uma pequena fogueira.

É a prova de fogo.

Basta isso para que ela, após algumas luas,

apareça como uma nova tamareira,

da qual virão milhares de outros frutos.

Por isso, vos digo: guardai esta semente.

Quando tiverdes dúvidas ou pensardes

estar tudo terminado, lembrai-vos de que

ninguém dá nada por ela,

mas que ela pode renascer das cinzas…

Causos de Viagem: Quase pipoca de Réveillon.

Era uma vez, há muito tempo atrás, umas cinco famílias de Cuiabá que resolveram passar o ano novo juntas em uma praia na Bahia.
Alguns saíram de Cuiabá, outros de outras localidades, pois já estavam antes de férias. Todos fizeram a viagem de carro. Conheceram cidades por onde nunca tinham passado. Roteiro Cuiabá – Minas Gerais – Bahia. Uns dias em Itambacuri- MG, terra de um dos participantes da viagem. De lá seguiram para Prado, sul da Bahia, quase divisa com Espírito Santo.
Bom de viajar em muita gente é que sempre tem encontros,  desencontros, brigas, aventuras, conversas e muita risada.
Chegaram todos num lindo hotel recém inaugurado à beira-mar, com tudo que precisavam: praia, piscina, cerveja gelada, comida farta e bom atendimento.
As crianças se revezavam entre mar e piscina e as mães sempre estavam correndo atrás de um. Os pais, lindões, sentados aproveitando os comes e bebes.
Dia 31. Marcaram de se encontrar às 22 horas no restaurante do hotel para cearem e depois irem juntos assistir a queima de fogos na praia.
Noite linda, estrelada. Vento fresco. Redes.
Quase meia noite. Correria no hotel para garantir o melhor lugar na praia.
Este grupo, muito esperto, esperou um pouco e viu um canto, perto de uma área fechada, onde não havia ninguém. O grupo tinha umas 25 pessoas ou mais. Todo mundo aboletado no melhor lugar da praia.
De repente, inicia-se a contagem, 10 – 9 – 8 – 7 – 6 – 5 – 4 – 3 – 2 – 1 … FELIZ ANO NOVO!
Só que ao estourar o primeiro fogo de artifício o que seu viu foram os vinte e cinco correndo do seu lugar magnífico na areia.
Haviam parado em cima de onde estavam “enterrados” os fogos!
Até hoje não sei como nenhum de nós notou as armadilhas na areia.
A sorte que o fogo começou um pouco mais ao lado de onde estávamos, e deu tempo de pipocarmos do local. Ou melhor, de escaparmos bravamente, caso contrário teríamos pipocado tal qual os fogos se estivéssemos uns 5 metros a mais de onde estávamos.
Ao final, crianças rindo, algumas chorando. Adultos cujo teor alcoólico estava alto antes, ficaram curados no primeiro Bum dos rojões.
O resto da semana foi de mais festa e lição tirada deste dia: Pergunte antes de ir para a praia onde os rojões vão estar dispostos para a comemoração!

Divagações em uma distante sexta-feira

 

DSCF0030

Parque na sexta-feira.
Hoje fui para o parque caminhar no fim da tarde. Nem tão fim assim, mas já estava escurecendo por conta da previsão de chuva. Volta pequena, muitas trovoadas e alguns raios, arco-íris, mas nada, nada da chuva. Parei lá em cima, num dos bancos, para pensar na vida, no tudo e no nada. Sempre que vou ao parque tenho meus momentos de reflexão. Reflexão pós caminhada, já que não corro, só ando por lá. Olho as crianças no parquinho, especulo sobre quem faz piquenique, brigo com os adultos que teimam em usar os brinquedos infantis (hoje não, mas várias outras vezes), tento fazer minha meditação aproveitando o “ambiente”.
Hoje pensei no nada, esperei a chuva chegar para sentir o cheiro da grama molhada. E, aos poucos, pensei na família, pensei em mim, pensei no coitado do cinegrafista atingido naquela cena bárbara de ontem à tarde no Rio de Janeiro. Pensei no trote do whatsapp do PCC sitiando Cuiabá, botando terror em muita gente. Por conta disso, pensei na brevidade da vida, nas promessas e engodos em que nos deixamos enganar (quero dizer, que eu me deixo), quando o certo é saber não esperar nada dos outros (e muita vezes nem de mim mesma, além de fazer a minha parte). Lembrei ainda de um ensinamento budista que afirma ser a frustração um sentimento indevido, já que ela é resultado de uma expectativa que criamos, sem a participação de terceiros, e que não foi correspondida. E, chegada a chuva, esperei molhar o corpo e a alma. Molhar a vida, os pensamentos, a grama, o parque, a cidade. E vim embora lavada, certa de que o dia foi calmo – como a chuva que veio e se foi.

Em mim mesma

MAFALDA

 

Que desespero. Ai!

Me fugiram as palavras e há tanto para ser dito.

Desapareceu a linha fácil; a necessidade de colocar o que quer que seja no papel – ideia, sentimento, lembrança.

Onde foram parar os verbos que tão bem descrevem as ações a serem feitas e as já efetivadas?  E os complementos, onde se esconderam?  Já não sei se objeto direto ou indireto fariam diferença ao me ajudar.

Eu quero desenhar as letras e elas não me vêm. Não consigo juntar uma à outra. Cadê vocês?

Desapareceram a vírgula, o ponto e vírgula e o ponto final.

Me sobra a exclamação de surpresa, de perplexidade!

“Onde estão vocês palavras?” vou continuar a gritar.

Me sinto muda, enclausurada. Me sinto despida sem ter como me proteger. É como se as palavras me dessem coberta, me abrigassem.

Me sinto cega, sem novos caminhos a desvendar. Com medo e insegura. Eu preciso de um lápis nas mãos, do rascunho e dos borrões. Voltem para mim, rápido!

Não consigo ir em frente, preciso do alfabeto como um marinheiro de um farol. Preciso das letras como cão guia. Voltem logo, pois nem lágrimas eu consigo derramar. Só vejo lugar para a melancolia da folha em branco esperando a primeira palavra para deslanchar.

 

(ilustração – Mafalda – Quino)

Um caso de amor com Rodin

 

rodin 1

Todas as vezes que vejo uma escultura ou mesmo uma foto de alguma escultura de Rodin meu coração amolece. Passo minutos tentando retornar ao meu estado normal frente a tanta beleza e perfeição.

Reconheço que há inúmeros outros escultores, tão geniais quanto ou para alguns até melhores, mas sou apaixonada por ele.

Com ele a pedra ganha vida, fala, geme e chora. A pedra pensa, cogita, raciocina. A pedra se transforma. Sei  ainda que os verbos deveriam estar no passado, mas cada vez que vejo as esculturas é como se estivessem sendo talhadas neste instante. Ou ainda mais, que nem de pedra são.

rodin3

Uma das grandes vantagens do mundo digital é podermos visualizar tanta beleza a partir de uma simples busca. Entretanto, a oportunidade de apreciar uma destas obras de perto em museus espalhados por ai é muito melhor.

Peças em praças, peças em locais fechados, exposições temáticas, vale qualquer coisa. Enquanto as admiro fico imaginando quantas vezes Rodin talhou a pedra, se teve alguma peça que quebrou durante o trabalho e teve que ser recomeçada. Como ele se sentiu ao terminar cada uma delas, indiferente de serem grandes ou pequenas.

rodin 8

O bom da arte é atingir as pessoas de modo diverso. Pode-se gostar ou não do tema, do que representa, mas é indiscutível que não há o que se falar em relação à técnica, porque perfeita e limpa, E, estamos falando do final do século XIV e início do século XX.

rodin 6

Não sei porque resolvi escrever sobre ele hoje. Vi um post de alguém com uma escultura dele e minha memória foi ativada. Uma saudade das peças vistas, dos lugares onde as vi, dos dias de viagem, do sonho.

Há muitos outros artistas, uns tão próximos,  outros ainda a descobrir. Mas Rodin, este já tem um pedacinho do meu coração!