Arquivo mensal: novembro 2014

Uma noite com Frejat.

frejat

Teve algo de mágico o encontro de fim de ano ontem. Amigos que vejo muito, amigos que não vejo nunca, mas estão sempre presentes.

Tocou bolero, forró, mpb e cada grupo se divertia da melhor maneira. Uns dançando, outros só conversando, e alguns, nem sei por que saem de casa, pois ficam de cara amarrada como que censurando os que estão se divertindo.

Eis que chegou o momento principal da festa. Sem apresentações ou mais delongas. Dá-se o primeiro acorde e muitos dos presentes correm para a frente, na chamada turma do gargarejo.  E ele entrou, imponente num terno meio roxo, super fashion. Me aproximei para vê-lo também.

A voz estava perfeita ontem. Não ficou conversando conosco nem nada. Falou do repertório especial para a festa e se lançou.  Cantou de tudo: autorais, Roberto Carlos, Tim Maia, Barão, Titãs, Paralamas, Cássia Eller. Cantou suas músicas e nos deliciou com uma noite vibrante.

Mas a ideia não é falar do show e sim das minhas percepções do “tempo”.

Quando ele entrou e fui  lá pra frente, comentei com alguém  que eu estava feliz de ver que o tempo passara pra ele também. Que a sensação de que só eu envelheço não era verdadeira. Ele já não era mais o “menino” que embalara minha juventude, com ou sem Barão.

Só que imediatamente esta sensação foi se desmanchando. Ele rejuvenescia enquanto eu dançava e cantava a plenos pulmões. E eu rejuvenescia junto. Já era o mesmo jovem gato, de voz firme, ainda que com aquela rouquidão cortante. Com certeza, memórias acordadas.

Percebi, no rosto da maioria dos meus amigos presentes,  a mesma sensação. Cada um deles tinha suas próprias histórias a serem contadas através das canções que ele tocava. A magia daquele momento era única.

Nesta mesma comemoração em anos anteriores já tivemos presença do RPM, Paralamas, Emílio Santiago, Maria Rita e tantos outros. Sinceramente, ótimos shows, dancei de montão também. Mas ontem foi especial. E acho que nem eu mesma sabia que era tão fã dele, ou que poderia ficar ainda mais.

O tempo não voltou. E, ao contrário do que diz a canção – o tempo não para… – o tempo parou. Naquela hora e meia parou. Eu não envelheci. Rejuvenesci meu espírito, minha alegria, minha confiança. Dancei junto, separado, cantei baixo e aos berros. E, embora ele tenha cantado estes versos no meio do show, tive a certeza que eles (tanto Frejat como a música) estavam certos: “Quem sabe ainda sou uma garotinha”.

* Foto de Carla Silva – que aproveitou e ficou  na primeira fila.

 

Dentro de um quadro

quadro paisagem

 

Há trinta anos, quando decidi vir para Cuiabá, minha tia-mãe me perguntou o que eu gostaria de trazer de lembrança deles. Eu me lembrei de um quadro que eu amava, pintado por ela, que estava na parede às costas da mesa do tio-pai no escritório dele. Falei sem a pretensão de trazer o quadro, já que nem no atelier dela estava. E a resposta dada foi: Vou ver.

Dias depois, quando volto da faculdade, nem lembrando mais da oferta e muito menos da minha petulância em pedir justo aquele quadro entre os tantos outros que ela havia pintado, lá estava ele em cima da minha cama, junto com outros pequenos mimos que eles sempre me faziam.

O quadro está hoje em dia na minha sala e não canso de olhar para ele. A janela, ou abertura em um muro, com vista para tantas araucárias, é uma das paisagens que me fazem viajar. Nem passado, nem futuro. Somente viajar.

Às vezes saudades, outras tantas projetos. Às vezes silêncio, normalmente oração. Algumas vezes olho para a pessoa que caminha na pintura, outras tantas sinto que sou eu que passo por lá.

Não é uma paisagem específica, mas, ao mesmo tempo, é todo o Paraná. Não representa uma lembrança em si. Representa mais o que eles foram para mim.

Me fecharam em abraços, me abriram para o mundo. Me sentaram à mesa, me alimentaram a alma. Me tiravam a televisão, mas me davam livros pra conhecer. Me levaram com eles onde podiam, me permitiram vir para cá várias vezes antes de me mudar de vez.  Questionavam minha decisão e ao mesmo tempo me davam empurrões pra decidir.

Esta janela é meu eu interior. É minha alma, um pedaço de mim.