Arquivo mensal: fevereiro 2015

As pedras e o caminho

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Que graça teria se ter uma vida
sem alguns pedregulhos pelo caminho?
Pedregulhos, pedrinhas, pedras,
montanhas, uma cordilheira inteira.
Como perceber a aspereza do solo
Se não caminharmos pela areia?
Como aprender a moldar os pés no terreno
Se não andarmos sobre pedras pontiagudas?
Como descobrir a força que tem o oponente
Se não entendermos os diferentes tipos de componentes?
Como aproveitar e sentir o vento por entre as montanhas
Se aplainarmos todos os topos e cumes?
Como nos esconder da maldade se não houver algum muro
Que faça tal proteção?
Como alcançar a beleza de um granito,
Se não aprendermos a polir nossas vontades?
Como saber diferenciar a singeleza do grafite da dureza do diamante
Se não conhecermos sua utilidade?
A vida que passa reto, sem traumas, sem topadas, sem desvios, só passa.
Não precisa vir avalanche, mas se vier, que estejamos preparados.
Uma vez ouvi uma das frases que mais me impactaram na vida:
“Podemos estar no nosso momento areia ou montanha, mas temos que ter certo que os dois são compostos dos mesmos átomos. Um em seu momento inteiro, ou outro já desgastado, mas ambos intrinsicamente são unos.”
A areia bem trabalhada vira cristal; a montanha bem machucada vira grão.
Depende apenas determinar em que estado Pedra desejamos estar.

Frase: Deepak Chopra em palestra em Curitiba.
Foto: minha – Barcelona – 2015. praça ao lado da Casa Miró

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A vista da minha mesa

parede

Quando olho para a parede em frente onde estou sentada agora, fico me perguntando quantos personagens levo em mim. Ou ainda, o que dos personagens agreguei aos meus pensamentos, valores e comportamento.
Os personagens fixados na parede são somente reflexo de todos os outros que habitaram os livros que já li.
Alguns desapareceram tão rapidamente como entraram. Outros me marcaram ora pela delicadeza, ora pela grosseria; pela inteligência, ou algum aspecto que nem mesmo sei descrever – aquele gostei ou não gostei deles.
Olho para a parede e aqui sim a leitura ficou imortalizada, já que entendo que livros em prateleiras não me tornam especial ou intelectual. Mostram apenas um apego a livros. Na realidade não sou apegada à maioria dos personagens que passaram pelos meus olhos e não me apegarei a novos. Gosto de livros, revistas, filmes. Mas prefiro vê-los circulando. Tudo bem que quando me pedem emprestado um livro e não devolvem fico chateada. Mais pela falta de educação da não devolução do que pelo livro ter partido. Não me peça emprestado, peça dado!
Minha casa tem centenas de livros – de direito, medicina, psicologia, administração, romances, autoajuda (poucos, mas confesso que tenho), religiosos, biográficos, da sessão dos mais vendidos, guias de viagem, aos de sebo amarelados e também já lidos por outras pessoas – e já doei outras tantas. Sou louca por dicionários de tudo – ortográficos, de rimas, de linguajar, jurídico, de negócios etc., mas agora fico com os virtuais.
Sempre que faço uma faxina cultural – minhas prateleiras ficam mais espaçosas para receber novas histórias, novas vidas, novos dramas e reciclar conhecimentos. E, com certeza, isso ocorre dentro de mim. Os personagens se vão. Alguns deixam saudades, outros não. Porém abrem um vazio para ser preenchido logo, pois todos os dias tem lançamento de um título novo. Os personagens idos e vindos são como as pessoas que passam pela nossa vida. Uns marcam, outros não sabem nem o que vieram fazer, quanto mais ganhar importância – na escala abaixo dos coadjuvantes.
Minha mãe tinha uma biblioteca imensa, de valor pelo seu conteúdo e sobre os mais diversos assuntos. Gosto de pensar que apesar do trabalho que deu nos desfazermos de tudo, as bibliotecas de Curitiba ficaram com pedacinhos dela espalhados – pedaços do pensamento de minha mãe e do seu amor pelos livros também.
Voltando à vista da minha mesa – Cromm (não lembro o autor) e O último judeu (Noah Gordon) decoram a parede há alguns anos. Eu desmontei os livros, colei as páginas uma por uma. Confesso, não apenas em relação a estes dois livros, que muito do que li eu esqueci. De vez em quando paro e leio um pedacinho para relembrar as histórias. É como assistir um pedaço de um filme visto tempos atrás e que você relembra toda a trama, e sentar no sofá para ver de novo.
Não sei quanto tempo vai durar esta parede. Já ando pensando em trabalhar algo novo neste espaço. Como disse, não sou apegada aos livros, imagina se seria com a parede. Quem sabe mudando a vista da mesa me abra mais para novos desafios, novos caminhos. E, possa depois escrever sobre outro assunto.

A bagagem de cada um – malas de viagem.

Mala Giana
Conheço pessoas cujas vidas cabem em uma ou duas malas. Aprenderam o desapego. Aprenderam a ficar leves. Viajar, se mudar, passear para elas representam um ato de: “Estou saindo. Te vejo na volta!”
Conheço outras, em compensação, que até para irem à esquina, levam o que daria para preencher um container. Nada lhes parece fácil; não podem deixar nem um dos seus batons em casa, porque vai que falta! A própria bolsa já parece uma quitinete.
Eu ainda não me descobri neste assunto. Tento carregar minhas malas medianas. Algumas peças vão passear comigo e outras faltarão no decorrer da viagem. Por mais que eu organize as roupas sobre a cama dias antes da viagem; por mais que eu saiba que vou sair cedo do hotel e só voltarei para dormir, ainda tenho um pouco do pensamento: “ Vai que eu preciso deste vestido!” ou “E se chover e eu precisar algo extra?!”
Mas, o mais triste, ou mais estranho, é saber que estas dificuldades são reflexos do que somos na vida, do que carregamos conosco.
Não posso dizer que acho errado alguém levar o mundo junto de si e carregar no percurso de seu passeio quilos de coisas que à primeira vista me parecem inúteis. É certo dizer que se chover poderão ter utilidade. Ou, se houver uma festa de casamento surpresa serão usadas; e ainda, se acontecer um vendaval, poderão ajudar os desabrigados. Apenas me parece muito.
Da mesma forma, como julgar quem leva não uma mala, mas somente uma sacolinha, e passa do calor ao frio com a mesma destreza. Que fica com três variações de roupas a viagem inteira, ou usa o mesmo par de brincos durante um mês? Não seria esta uma pessoa ecologicamente e politicamente correta?
Já assisti inúmeros vídeos de como preparar malas para as mais diferentes ocasiões – de férias a ocasiões profissionais. Confesso que mesmo lendo Glória Khalil e outros manuais ainda não me é uma coisa simples. Toma tempo decidir e na volta sempre descubro que decidi errado. Não devia ter levado o casaco vermelho e sim o preto (que já quase anda sozinho) porque combinaria com tudo; que deveria ter levado aquela saia colorida, pois era a cara da praia, e assim vai. Muito complicado.
Agora mais moderninha já estou aprendendo a levar os livros digitais, o que, sem dúvida, torna muito mais leve minha bolsa. Já não preciso mais carregar a revistinha de palavras cruzadas e o caderninho de anotações, pois também serão digitais. Quanto às fotos, estas também poderiam ser apenas as do celular, mas gosto de sentir a câmera na mão, buscar foco e dar o clique na máquina. Talvez mais uns anos e eu terei uma câmera que de vez em quando possa usar para conversar com alguém distante.
Se viajo de avião e estou sozinha tenho o truque de levar uma muda de roupa na bolsa de mão. É certo que eu embarque, mas sem a certeza de que as malas chegarão junto ao destino. Outro truque é, quando viajando com mais alguém, trocar peças de roupa nas malas também. Levo algumas da pessoa na minha mala e coloco algumas roupas minhas na mala dela. Há muito tempo, aqui em casa, não viajamos com malas individuais em viagens familiares. Isso são dicas para facilitar a vida, e no que refletem a personalidade, podem dizer: ali vai uma pessoa prática.
Sem falar na dificuldade de organizar malas para estações trocadas. Sol escaldante em Cuiabá e eu experimentando casacos pesados, para viajar para o frio. Sempre me parece que não há possibilidade de fazer tanto frio quanto os meteorologistas alertam.
Voltando às malas e à personalidade, onde encontrar o equilíbrio? Já sei que não consigo ser uma turista europeia, do tipo três roupas e sem preocupação – resultando em algo parecido com mochila, meia soquete e crock; e não chegarei a uma Barbie, turistando de sapato alto, brinco combinando e chapinha no cabelo (sem ofender quem faça o gênero).
Talvez o ato de fazer e desfazer minhas malas mil vezes antes de partir me faça ficar cada vez mais leve. Procuro sempre tirar peças e não colocar mais do que as primeiras previstas. Quem sabe um dia eu possa escrever um manual de como fazer malas, pois será sinal de que as minhas estarão perfeitas ao fim que se destinam. E eu, equilibrada.

Ninho vazio

pássaro

Passarinho,
Passa rindo
Passa piando
Passa cedo
Rapidinho.

Pássaro grande
Passa longe
Passa perto
Passa veloz
Se sente gigante.

Passarinho
Ensaia voo
Ensaia mergulho
Ensaia vida
Manda beijinho.

Pássaro grande
Voa distante
Abre as asas
Plana alto
Deslumbrante.

Quanta aventura pode ter
Quem se lança solitário
A voar terras longínquas
Em um céu dia nublado,
Em outro céu de brigadeiro?

Peripécias de quem cresce,
Ainda que não perceba
Que de passarinho
Passa a pássaro
Buscando um novo caminho.

E quem fica aqui olhando
Só deseja um bom destino
Que seja feliz em seu voo
Pássaro grande
Meu menino.

foto: Kingfisher by Jon Chua

Amplitude

foto de Taylor Marie McCormick Photographe

 

A menina não sabia

se chorava ou se sorria,

acabara de abrir o presente,

era tudo que queria.

 

Melhor que um computador,

bicicleta ou aquele espelho lindo

que tinha gostado na vidraçaria.

 

Não era livro, apesar do quanto também os queria,

aquelas muitas histórias de outras vidas,

contando suas realidades ou somente fantasias.

 

O presente era simples

encapado especialmente para ela.

O que o tornava único era sua fotografia

na primeira folha do caderno.

 

Ali ela reportaria toda ânsia e angústia,

Que trazia em sai cada dia mais forte,

Só lhe faltava onde poder gritar e esconder

Todo este destempero.

 

Mas um caderno é tão simples, por que o alvoroço com o presente?

Ela não sabia explicar, pois já pedia um lápis,

só queria começar a despejar

o que tinha dentro de si imediatamente.

 

Ninguém nunca leu seus contos, suas crônicas e poesias.

E o caderno virou milhares de folhas presas,

Mas para si ela dizia: Eu libertei outros mundos outras gentes,

Quanto mais escrevo, menos me sinto vazia.

 

 

foto de Taylor Marie McCormick