Arquivo mensal: março 2015

Noite estrelada

noite estrelada 2

Se cada estrela numa noite escura
Representasse um bom pensamento
Ficaria feliz pelo incontável número,
Sem encontrar entre elas o primeiro.
Talvez se fossem cometas
Materializassem desejos,
Encorpassem sonhos,
Provocassem tesão.

Se cada estrela numa noite escura
Representasse um mau presságio,
Desejaria que o sol aparecesse mais cedo,
Apagando o rastro da predição.
Que a lua se tornasse cheia
Gigante, brilhando, provocando suspiros,
apagando com sua luz o reflexo daquelas,
Espantando tal previsão.

Se cada estrela numa noite escura
Representasse um beijo dado
Faltariam sistemas solares,
Astros vibrantes, planetas desiguais.
Precisaria de muitas galáxias
Para simular tamanha paixão.

Se cada estrela numa noite escura
Não brilhasse mais ao anoitecer,
Inútil a escuridão da noite,
Cartas celestes e mapas astrais.
Que o dia permanecesse em luz,
Aguardando um efeito especial
De a noite chegar mansamente,
Criando novas estrelas e tornando-as reais.

noite estrelada 1

Imagem céu estrelado e Calvin e Haroldo – internet

Felicidade

Extravaganza by Alex Chebotar

Cadeira de praia à beira-mar, rede larga na fazenda,
Chocolate quente em dia de chuva, livro de poemas na cabeceira.
Filhos correndo em volta da casa. Dia de aniversário, festa surpresa.
Amigos fazendo visita, risoto quente servido à mesa.

Céu azul em dia frio, chuva forte em dia quente.
Banho longo pra relaxar; cachoeira para brincar.
Soltar pipa na praça, jogar betes na rua.
Canastra com os amigos na varanda, telescópio para ver a lua.

Vinho bom ou cerveja gelada, um filme romântico na tela,
Exercícios de ioga no chão, dançar loucamente pela sala.
Alguém trazer chá em dia de febre, pão quente no fim de tarde.
Abraço longo quando se chora. Um Eu te amo quando não se espera.

A felicidade é efêmera, momentânea.
Começa não se sabe onde, acaba sem porquê.
Paira no ar, flutua no espaço,
E como surge, se vai. Assim, independente. Instantânea.

Foto – Extravaganza by Alex Chebotar

Quatro quartos, um inteiro

INFÂNCIA

Pedaços díspares
Nada uniformes
Originalidade de estilo
Assombrosa equação.
Não existe resposta
Para encontrar o x da questão
Por mais que a matemática busque
Nas fórmulas para irmãos.
Tempo entra
Tempo passa
Tempo acaba
Tempo vão.
Haverá novos encontros?
Centro Oeste
Planalto central
Nordeste?
O mundo circular
Cria cantos para complicar
Mundos distintos
Difícil conciliar.
Linguagem própria
De “hipopótica” verdade,
Do Lugigigê na janela,
Código da unicidade.
Talvez não se realize
A viagem conjunta,
Mas mantenho a vontade
Por isso, a pergunta.
José de Alencar,
D. Pedro II,
Voos de liberdade
Asas para nunca voltar.
Juntos somamos
Na busca individual
Mas ninguém aglutina
O que é intrinsicamente pessoal.
Quatro quartos, um inteiro.
Quatro partes sem roteiro.
Quatro partes do mesmo círculo,
Uma família, quatro inteiros.

Sendo apenas Oswaldo Montenegro

Quando a gente ama

Quem vai dizer ao coração,
Que a paixão não é loucura
Mesmo que pareça
Insano acreditar
Me apaixonei por um olhar
Por um gesto de ternura
Mesmo sem palavra
Alguma pra falar
Meu amor,a vida passa num instante
E um instante é muito pouco pra sonhar
Quando a gente ama,
Simplesmente ama
E é impossível explicar
Quando a gente ama
Simplesmente ama!

Link: http://www.vagalume.com.br/oswaldo-montenegro/quando-a-gente-ama.html#ixzz3UI6G6W29

Mulher

medo - Katerina Plotnikova

Se me perguntassem como sofro,
Diria que calada,
Sofro irritada, afobada,
No espelho, refletida.
Sofro ouvindo música
Sem gênero ou voz
No lirismo das notas
No apelo instrumental.
Sofrimento contínuo
Exposto, aberto
Corpo autopsiado
Sem o v no peito rasgado.
Padeço como as praças
Sem verde, sem cor,
Não mais crianças correndo,
Apenas cimento rachado.
Sofro por amizade,
Pelo azedume de personagens,
Pela notícia aterrorizante
Narrada sem emoção pelo apresentador.
Me corroo por tudo, por nada,
Para desatar tenho o arbítrio,
Despregar da realidade
Mergulhando no infinito.
O sofrer não me é dado,
Parece que busco motivo,
Criar rugas e soluços
Justificar o creme comprado.
Passo voando sobre a terra,
Queria em bocados, mas sofro inteira
E não permaneço sofrendo
Já que sou sonho, quimera.

Photo by katerina Plotnikova

Humores

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Nosso humor pode variar conforme o dia, ninguém há que dizer que não. Além disso, há pessoas cujo humor varia muito em um único dia. E, por último, há ainda os bipolares ocultos e os declarados, mas não é sobre estes que escrevo.
Escrevo sobre gente comum (não normal), que acorda alegre, de bem com a vida, sai de casa para trabalhar, malhar, comprar pão ou o que quer que seja, e durante o dia pode ser que receba uma notícia ruim, presencie uma cena, ou ainda assista um filme que altere totalmente seu estado de humor. De gente que em um dia cansativo e nervoso, se deixa levar por uma música e quando nem percebe está bailando solitário na fila do caixa do supermercado enquanto espera sua vez.
Algumas vezes o comportamento ligado à mudança de humor dura minutos, e outras vezes, dias.
Por que isso acontece? Creio que é justamente para que sejamos comuns, até normais agora. E, a alteração do humor acaba alterando o comportamento do indivíduo no seu ambiente pessoal e profissional. E com isso as pessoas são taxadas de alegres ou tristes.
Devemos perceber, entretanto, que nem sempre o silêncio e a introspecção sinalizam uma pessoa triste ou deprimida. Por outro lado, nem sempre uma pessoa sorridente e risonha está feliz. Muitas vezes a máscara “do sorriso” está vestida justamente para esconder a tristeza de seus pensamentos, as frustrações de seu dia-a-dia, a inquietude da alma.
E, por que ultimamente se confunde tanto introspecção com tristeza? Ou pior, tristeza com depressão?
A mídia, nossa cultura imediatista, os romances que lemos e os que assistimos na televisão, todos eles parecem conspirar contra um estado de espírito que não seja de felicidade plena, como se este nirvana pudesse fazer plantão de 24 horas, 365 dias por ano, na nossa vida. Não pode. Não há como. E, além disso, como se a felicidade plena fosse representada por sorrisos ou pelo riso solto.
Não é e nem pode ser.
Outro fator a ser levado em conta, é que, infelizmente nos dias atuais não se permite que as pessoas fiquem tristes ou sintam o luto das situações. Tudo é medicado, normalmente em tarja preta. E o sentimento que era para ser curado é dopado e escondido. Hiberna sob uma crosta medicamentosa que engana o corpo e a mente, até que um dia explode em resultados ainda mais dolorosos do que os que seriam normais se atravessado o período de luto.
Estar feliz é uma escolha; ser feliz, a consequência. Pode-se colocar duas pessoas assistindo o mesmo alvorecer e uma delas estar maravilhada por estar presenciando um grande fenômeno da natureza; a outra, por sua vez, pode estar reclamando de ter saído da cama cedo pra ver nada além do que o dia começar e passar o resto do dia reclamando que não dormiu o suficiente.
Estar feliz é um exercício diário de buscar seu próprio bem estar nas pequenas coisas. É o exercício de aceitar as coisas do modo que elas são. De buscar ver o lado positivo dos acontecimentos. É a somatória de atos que resultam em Ser feliz.
Estar feliz é estar equilibrado. Estar equilibrado é estar sereno. E, estar sereno é estar em harmonia consigo mesmo, e, portanto, nem no riso solto, nem na solidão da alma. Introspecção é reflexão. Reflexão é colocar a mente em um método lógico, ponderar sobre determinado ponto de forma concentrada. Ou ainda, é silenciar a mente e ouvir a intuição, deixar fluir a imaginação. E, neste momento, estar feliz.
Ser feliz é ainda saber que infortúnios fazem parte da vida. É vislumbrar assertivamente o futuro, mesmo quando a luta parece nada suportável. É o caminho e não o objetivo. A busca e não apenas o destino final.