Arquivo mensal: maio 2015

Ensimesmada

flor e gota

Centrada e de olhos fechados, tentava esquadrinhar dentro de si todo o baú de ferramentas para se vestir para a batalha.
Inicialmente buscava a aceitação. Os questionamentos “E se”, “Por que comigo”, “ah, eu não merecia” não faziam parte de seu vocabulário. Acreditava que pelo simples fato de estar viva e a vida não ser um sonho lindo da Disney, a probabilidade de uma experiência que a desafiasse era ampla, até mais do que a possibilidade de não a ter. Uma referência à lei de Murphy: pontual e específica.
Segundo, buscou focar a atenção. Atenção a si mesma e àqueles que a rodeavam. Passou por momentos de cansaço infindo que tomou conta de tudo. De apreensão gigantesca corroendo o racional, de uma tentativa de lágrima forçada, como se compaixão fosse o que lhe aconteceria mais naturalmente. Mas não era.
Em seguida, ainda em postura de lótus, abriu o cadeado de sua gaveta mental de atitudes.
Saíram de dentro desta caixa lembranças de palavras que proferiu para ajudar outras pessoas. Palavras acalentadoras e verdadeiras. Se em um momento estas palavras tiveram importância para serem ditas, qual o motivo agora para não serem ouvidas?
Mais um momento e ficaram livres a força interior, a luz, a vivacidade e a vontade de superação. Passearam no ar trechos de mantras, orações e silêncios interiores.
Não, não haveria mais luto e sim luta. Não haveria negociação. Ela queria pé na estrada, decisão. Empoderar-se para ganhar objetivo, sem escoras ou amparo simulado. Ela era luz e esperança. Esperança numa força maior e de energia que suplantasse qualquer negatividade.
E ela permaneceu ali. Pernas dobradas, respiração lenta, coração compassado. Assim permaneceu e o tempo passou. Acabou por não dar sentido à dor que em realidade não existia; à dúvida que não seria esclarecida e por fim ela se desvencilhou de si mesma.
Não precisava retomar de seu momento de introspecção. Carecia apenas abrir os olhos e visualizar ao seu redor. O mundo continuava com seus próprios horrores e maravilhas. Escândalos se misturando a novas descobertas científicas. Acidentes contemporizando à comiseração. A batalha era dela e de ninguém mais.
E desta forma, calmamente ela descruzou as pernas. Abriu os braços, respirou fundo e trazendo as mãos ao peito fez um gesto de agradecimento. Era só o que faltava para a aceitação total do seu momento. Um “e que assim seja porque estou pronta”.
Virou para trás e percebeu que eu estava ali esperando por ela. E me lançando um grande sorriso me pediu – me leva tomar um sorvete? E juntas soubemos que a vida continuava em sua desordenada rotina. Sempre igual e a todo momento repleta de novos desafios e surpresas.

Anúncios

Indo para o interior

INTERIOR

Dias em que a agitação toma conta da cidade,
trânsito louco,
pessoas correndo,
insanidade.

Busco um lugar novo,
sem medo, sem agitação.

Um lugar para respirar melhor,
sentar calada, olhar ao redor.

Um lugar para aquietar a alma,
sorrir para a vida,
abraçar a quietude.

Busco uma viagem,
trajeto longo, cheio de curvas.
Deslumbrantes paisagens,
um colorido inóspito,
grandes descobertas.

Sigo para o interior,
cada vez mais calma,
cada vez mais lenta.

Percebo meu entorno,
descortino o medo.

Sigo ainda mais para o interior,
cada vez mais fundo,
mais firme,
para dentro de mim.

Foto – Tomasz Alen Kopera