Arquivo mensal: agosto 2016

Seja o sol de alguém – antes de tudo o seu

aura

O ser humano há muito busca reconhecimento. Aquele sentimento de que fazemos sentido e somos importantes para alguém, para a comunidade, para a humanidade.

Entretanto, o que se percebe é que desejamos que este reconhecimento venha de fora para dentro, ou seja, que alguém hasteie bandeiras em nossa homenagem. Que diga o quanto somos imprescindíveis em sua vida, que não podemos faltar  ou nos afastar um minuto que seja. Alguém que repita incessantemente que somos o sol que ilumina os seus dias.

Mas (um segundo ‘entretanto’), sinto lhe dizer: tudo isso é seu ego querendo idolatria.

Nem sempre o que desejamos é o mais importante – nem para nós mesmo, muito menos para os outros. E mais, nem sempre o que  ambicionamos é o reflexo de como agimos. Não somos bondosos, caridosos e queremos ser reconhecidos pelo resto dos nossos dias por um único gesto de altruísmo.

Não somos fáceis de lidar, mais difíceis ainda de conviver, e ansiamos que todos adorem estar em nossa companhia.

Esperamos ouvir muitos eu te amo, ao mesmo tempo em que acreditamos que as pessoas que convivem conosco têm certeza que as amamos e que por isso não é necessário que digamos o mesmo a elas.

Queremos, desejamos, temos certeza que merecemos.

O ser humano deseja ser o sol de alguém. Porém, para que isso aconteça, precisamos primeiramente ser o nosso próprio sol.

Precisamos brilhar internamente para nós mesmos. Ter um sorriso de amor e cumplicidade para as nossas próprias atitudes. Perdoar-nos por nossos próprios erros. Perdoar profundamente os que estão à nossa volta e que erraram para conosco.

Ser o nosso próprio sol significa que estaremos completos e reconhecidos pela pessoa que mais deve importar – nós mesmos. Cada um de nós individualmente, em relação a si próprio. Sem vaidade, sem falsos agradecimentos, sem homenagens por aquilo não tenhamos feito por merecer verdadeiramente.

foto -Elizaveta Porodina ou Alice Litwin como é conhecida no deviant ART

E, com o nosso sol brilhando dentro de quem mais importa em nossa vida, começaremos a brilhar para fora. Algumas vezes timidamente, como depois de dias de chuva, quando o sol aparece sem jeito por entre as nuvens. E então, num crescente de luminosidade amplia a luz, a presença, mesmo sem percebermos.

No final, quando nos dermos conta, estaremos fulgurantes, plenos como sol de verão ao meio dia, brilhando sem distinção sobre todos. E, as pessoas em volta, continuarão o seus dias, suas rotinas. Algumas buscarão o filtro solar. Outras reclamarão porque têm que trabalhar em um dia lindo, enquanto outras deitadas no parque aproveitarão o momento. Mas, em pensamento, todos saberão da sua existência e em prece ou em pensamento lembrarão e  agradecerão a sua existência. Sem faixas, sem hinos, sem bandeiras, sem eu te amo, mas completa e inexplicavelmente com toda força do coração.

sol

 

Fotos –

1ª – National Geographic

2ª – Elizaveta Porodina/Alice Litwin, como é conhecida no deviantART

3ª – sem autor – internet

Síndrome de Hardy

Quase certo que conheçamos alguém quem passe o dia todo reclamando da vida. Chamo quem se comporta assim de portador  da  Síndrome de Hardy (personagem famoso de um desenho animado dos anos 70/80). Para um Hardy  nada foi bom, nada está bom e idealiza um prognóstico sombrio  para o futuro.

Hardy

Triste isso. A pessoa não tem noção de que o Universo responde justo o que se emite a ele. E  a consequência parece ser que o Hardy  tem razão quando diz que nada dá certo para ele.

Pode ser um dia de céu azul, churrasco na piscina e pássaros cantando. Hardy só conseguirá dizer que está quente/seco/úmido  demais;  que a carne está dura/sem sal/salgada além do necessário  e, no fim do dia,  para carimbar a alegria, é bem capaz de um pássaro fazer um cocozinho direto na cabeça dele.

Se for ao shopping reclamará que está cheio ou vazio para aquele dia da semana. Se ficar em casa, não conseguirá  aproveitar seu espaço e nem seu momento. Resmungará  por conta de bagunça/esmero; do  barulho/silêncio;  de que tem ou não tem algo para fazer.

O Hardy não consegue conviver bem sozinho, afinal para quem reclamará? O bom para ele é agourar a vida dos amigos, familiares e até mesmo da pessoa com quem mantém um relacionamento amoroso.

corvo - pixabay

Ele se sente como vítima de tudo  e de todos, mas jamais de seus próprios hábitos e pensamentos.

Não se pode dizer que uma pessoa otimista não sofra  infortúnios. Mortes, doenças, violência, demissões, péssimos relacionamentos acontecem a todo instante, indistintamente, não importando a bondade ou maldade das pessoas no mundo inteiro.  O que muda é como cada um de nós responde  aos acontecimentos.

A pessoa tipo Hardy toma os acontecimentos para si como um fator de castigo, de ‘eu sabia que não ia dar certo’ e pior ainda, de ‘eu avisei’. O otimista,  por sua vez, vai sofrer, xingar, culpar-se ou culpar os outros, mas aceitará o caminhar da vida muito mais facilmente.  O processo  mental  de aceitação do otimista levará menos tempo, embora muitas vezes continue sofrendo ou incorformado. O que difere é que este não viverá dentro de uma novela mexicana, sofrendo todos os capítulos, vertendo lágrimas a cada palavra pronunciada.

O Hardy cansa quem está à sua volta. Suga a energia dos que convivem ao seu redor. E, mais triste ainda, gasta sua própria energia vital negativamente. Como não consegue agregar nada de positivo para os que convivem com ele, não vislumbra o tempo perdido e o desgaste em sua própria vida.

O Hardy do desenho animado estava sempre na companhia do Lippy, o leão mais otimista da face da Terra, fazendo o contraponto ao seu desânimo e muxoxo. Porém,  na vida real os Hardys  não costumam  ter amigos que os tolerem, justamente por serem um  poço de pessimismo.  Assim, como bom pessimista,  não entenderá que é seu próprio comportamento que os mantém afastado da humanidade e, em um círculo vicioso, culpará os outros.  Oh céus! Oh dia! Oh solidão! Oh azar!

solidão - pixabay

Desenho animado no youtube:  https://www.youtube.com/watch?v=ps13Ezjp2bc

Imagem – internet

 

A perfeição do imperfeito

Outro dia assistindo a um programa de culinária o apresentador buscou uma travessa para servir o prato feito. A travessa de louça azul estava lascada em dois cantos. Que coisa impensável para apresentar na televisão, não? Não mesmo.

Assim que ele escolheu a travessa no guarda louça, em um comentário simples ele disse que amava peças que tinham história e que aquela, em especial, já havia participado de tantas comemorações, almoços em família e aparecido nos seus programas em outros episódios que ela (travessa) já se sentia estrela do programa.

Achei aquilo incrível e não me pareceu em nada que fosse uma desculpa televisiva, até porque era possível parar a gravação e editar a cena com uma travessa nova, sem lascados, o que não aconteceu.

Assim que terminou o programa fiquei pensando em uma história que já tinha lido sobre  louças japonesas e o   Kintsugi ou kintsukuroi.  Essas palavras tão diferentes para nós nada mais são que a arte secular japonesa de restauração de peças lascadas ou quebradas utilizando  um verniz especial  (laca) polvilhado com ouro em pó, prata ou platina. E o efeito, lindo.

vaso

No início do século XV a mistura era usada em peças de porcelana e louça. Atualmente se utiliza a técnica também artigos de couro e tecidos.  E, pensei eu, poderia ser utilizada em gente.

camisa

Mas o que tem isso a ver com gente, conosco? E eu respondo: muita coisa. A sabedoria oriental transforma as peças lascadas ou quebradas em algo único, impossível de serem reproduzidas, e ai que entra a analogia que quero apresentar:  – Nós, apesar dos  machucados, ferimentos ou sensação de quebrados, podemos sim nos recuperar e nos tornarmos mais seguros e fortes. O que nos falta é encontrar a nossa “laca e o pó de ouro” para a mistura.

peito

Penso que para algumas pessoas esta cola seria feita de lágrimas e fé – qualquer que seja ela. Para outros de suor e determinação? Para outros ainda, risadas e um deixa pra lá verdadeiro, ou então,  perdão e amor – próprio e aos demais, por que não? Entretanto será necessário ter consciência de que a cola precisa de tempo para secar e o verniz para brilhar, culminado assim na recuperação do físico e da alma.

Como resultado teremos cada um de nós convertidos em peças únicas, mais preciosas e fortes que o formato anterior. E cada vinco da laca representará a  cicatriz de uma história indivisível, única e surpreendente .

Fotos – internet.

Publicado no site https://osegredo.com.br/2016/08/perfeicao-do-imperfeito/    dia 12 de agosto de 2016.