Arquivo mensal: setembro 2016

Boca fechada não entra mosca

Já ouviu esta expressão: Boca fechada não entra mosca?

Minha mãe costumava repetir este ditado quando falávamos algo inconveniente ou não parávamos de falar.

O ditado não está necessariamente ligado a falar mal ou fazer fofoca. Muitas vezes simplesmente ao ato de falar impensadamente e, com isso, criar embaraço pessoal ou em relação ao grupo onde se está.

Muitos estudos tentam entender o porquê de muitas pessoas não conseguirem ficar sem expressar opinião ainda que não entendam nada do assunto. Ao contrário da atriz convidada a participar de um programa de televisão que quando perguntada a respeito dos filmes apresentados respondia não poder opinar,  em relação a não falar besteira só se pode entender que ela estava certíssima. Ela própria reconhecia não ter conhecimento suficiente para se expor no debate e pronto. Simples e direta.

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Por outro lado, um bom número de indivíduos costuma dar opinião em matérias às quais jamais ouviram falar ou leram a respeito, num simples exercício de pertencimento e de prestigiar o próprio ego. E com isso a possibilidade de entrar mosca cresce em proporção geométrica.

Falar sem pensar, opinar sem conhecer um mínimo que seja sobre o assunto e fofocar fazem parte de um pacote de descontrole mental. Demonstram insegurança e necessidade de ser ouvido – ainda que o resultado possa ser desvantajoso a si mesmo. E com o risco de se encaixar ainda em um segundo ditado: Quem fala o que quer ouve o que não quer!

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Pessoalmente gosto de falar. Lecionei muito tempo. Já palestrei em vários eventos. Puxo conversa em fila de supermercado. Por conta da profissão me expus e fui exposta a situações onde o cuidado com a palavra expressada teve que ser maior do que o assunto tratado propriamente dito. Mas faço parte do grupo que acredita e tenta arduamente trabalhar o silêncio oral e mental. A teoria de que se não se pode oferecer uma palavra positiva aos outros é melhor ficar calado.

E, percebo ainda, que na maioria das vezes quando me falta uma palavra positiva, um olhar carinhoso, um abraço, um sorriso ou simplesmente sentar juntos de mãos dadas expressam melhor o que não sei como falar.

Texto publicado no site Osegredo em 21 de setembro de 2016.

EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSCA!

Alma Velha

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Hoje eu estou com a alma velha.
Não reflete quem eu sou, mas o que sinto agora.
E a alma está velha.
Alquebrada e cansada, pesarosa como se o tempo me tivesse machucado.
Não o fez, mas sinto a alma velha.
Ranzinza e medrosa, tão diferente do que sou.
Sem objetivo, sem meta, apenas uma velha alma.
Onde os sonhos não mais alcançam.
Alma de sonhos esgotados.

Hoje eu estou com a alma velha,
Não velha de idade, mas velha no fundo da alma.
Aquela velheira de fim de tarde, do crochê das antigas avós.
Aquela velheira da cadeira de balanço,
das meias elásticas grossas apertando os pés.
Aquela velheira do sentar na cama e receber a sopa nos lábios sem cor.

Hoje eu estou com a alma velha.
E quando me olho no espelho  pareço contar as rugas,
Contar as cicatrizes, os cabelos brancos.
Contar as frestas abertas das feridas não curadas,
Contar os capítulos da vida ainda não terminados.

E, ainda que hoje eu esteja com a alma velha, basta abrir a janela e perceber que minha alma velha apenas em mim incide.
Pela janela vejo um jovem correndo pela calçada para manter a forma.
Uma senhora em destino desconhecido. Um casal abraçado arrulhando juras de amor.
Meu pensamento se desvanece na realidade. Inerme e soturno.
Tenho apenas poucos anos, mas hoje estou com a alma velha.

Mudando como as estações.

Se permita mudar como as estações.

Um dos fenômenos mais aclamados da natureza são as estações climáticas – Primavera, Verão, Outono e Inverno. Hemisfério norte e sul em datas trocadas, mas os mesmos fenômenos. Em algumas regiões do globo há a prevalência natural de uma estação sobre as outras. Algumas vezes dentro da própria estação suas manifestações ocorrem com mais rigor. Porém, em todas as regiões, há o tempo de florir, o de brilhar, o de despetalar e o de se recolher.

Trazemos em nós as estações internas. Reflexos do que somos, de como crescemos, amadurecemos e nos permitimos para o mundo.

Alguns carregam o Inverno como natureza – introspectos e reservados. Reserva de si mesmos em relação aos outros ou reserva de suas energias para um momento posterior. Há quem seja  Verão em seu apogeu. Chegam chegando, ofuscando, aquecendo. Chegam com brilho e determinação.

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Existem os  Primavera – que florescem de um dia para o outro, que embelezam os ambientes, e buscam harmonia entre as cores e sentidos. E muitos são Outono, elaborando o sentido da preservação e do cuidado com o próprio interior.

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Há quem consiga passar pelas quatro estações em um único dia. De furacão a calmaria. Da preservação energética ao florescer. Por outro lado, há quem aparente ser uma única estação o tempo todo, como característica de sua personalidade.

Entretanto, por mais que nos vejamos especificamente uma das estações, não devemos nos manter no sombrio do inverno e nem no ápice do verão. O inverno carece da lareira para aquecer o corpo e a alma. Precisa do chocolate quente, do chá e da sopa energizar. E, ao contrário, o verão precisa da brisa para amornar a pele. Necessita do vento para emaranhar os cabelos, de sorvete, de melancia e de água fresca acalmando o corpo.

Precisamos do outono para planejar, preparar, mas não devemos ser apenas Outono – o que foi planejado há que ser executado. Ao mesmo passo de que o que floresceu – enquanto Primavera – precisa ser reciclado, revisto, até para florescer outra vez ainda mais belo.

Precisamos estar atentos à nossa natureza, porém, ainda mais, é necessário também nos permitirmos  que o fluxo da vida adentre em nossos corações e espíritos em seu próprio ritmo. Nesse caso passaremos pelas estações naturalmente, sabendo que há o tempo de nos organizarmos para florescer. E, que há também o tempo de nos recolhermos até para brilharmos mais.

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Imagens – internet