Arquivo mensal: outubro 2016

O inexistente “E SE?”

Olho para trás agora e me pergunto calada: “E se eu não tivesse tentado? Como seria minha vida? O que estaria diferente?”

Tal qual uma corrente de dominó quando a primeira peça é empurrada, a vida se desenrola por conta de movimentos – pessoais, de terceiros, do universo até.  Às vezes sutilmente, outras vezes parecendo terremotos.  Um dominó derrubando o posterior até que uma brecha entre eles cesse o movimento ou encontre um contrapeso.

Quando questionamos os acontecimentos da vida com um “ E SE”, alteramos o rio que seguia seu curso naturalmente.

“E SE” não tivéssemos empurrado o primeiro dominó? Talvez eles permanecessem enfileirados firmes e fortes esperando o tempo derrubá-los. Quiçá um vento mais forte tivesse soprado e os derrubado desordenadamente. Quem sabe ainda outra pessoa pudesse ter passado por lá e sorrateiramente dado um toque só para ver o que aconteceria. Quem sabe?

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Há um perigo muito grande quando tratamos do “E SE”?. Desconhecemos o que poderia ter acontecido ou o que poderia ter sido evitado. Qualquer resposta que se dê é mero jogo de azar.  Não se pode certeza de nada.

“E SE” eu não tivesse escrito este texto? Talvez alguém mais pudesse ter tido a mesma ideia, talvez não. Talvez eu continuasse pensando no tema, ou ele morreria dentro de mim sem consequência alguma.  “E SE” eu escrever sobre o tema? Talvez ele não seja lido, ou quem sabe, lido por milhões.  Talvez alguns concordem com seu teor e poucos discordem. Como também pode ser que aconteça justamente o contrário.

O “E SE” é o símbolo da incerteza. Da precariedade do ato. Do desconhecimento dos resultados. É  fantasioso também.  Agita o imaginário de todas as formas possíveis em implicações improváveis.

A pergunta “E SE” pode ser questionada antes de se tomar uma decisão e ainda assim a resposta permanecerá como um jogo de adivinhação. Uma simples análise do que se vai fazer: “E SE” eu agir assim, quem estarei atingindo? Que efeito dominó posso provocar? Estou pronta para assumir as consequências?

O “E SE” para eventos futuros é preventivo, ainda que incerto. Uma análise prévia de possíveis cenários, evitando-se alguns resultados. “E SE” ainda assim não funcionar? Sinto informar, mas já funcionou. Assim que era para ser.

Já o “E SE” com relação ao passado, esse sim jamais deveria ser levado em consideração, pois acabado. Quando fantasiado com os possíveis cenários podem causar ainda mais ansiedade, pois não se costuma idealizar com perspectivas negativas. As pessoas costumam fantasiar criando de modo positivo o que poderiam ser e não foram. E mais, fantasiam  como não serão.

Cada vez que escutemos alguém usando ou pensarmos nós mesmos na expressão “E SE” eu tivesse feito …” precisamos lembrar que não fizemos tal coisa ou tomamos tal atitude (caso o “e se” seja por desfazer atitude anterior).  O “E SE” é mero capítulo não assistido da novela de nossa própria vida. De forma que devemos buscar o que pode ser consertado, arranjado e considerado de agora para o futuro.

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“E Se” ninguém pensar assim? Bom, talvez nada aconteça, mas pode ser também que se desencadeie um conflito mundial. Quem sabe?

 

Publicado no site http://www.osegredo.com.br  em 27 de outubro de 2016.

Fotos arquivo de O segredo.

Recebi um elogio. O que faço?

Sempre me questiono por que a pessoas ficam tão sem graça quando recebem um elogio. Desconfiança? Incredulidade? Basta alguém dizer que estamos bem vestidos para respondermos em seguida: “- Obrigada, mas esta camisa está tão velhinha!” ou “- Mas tem um buraco aqui do lado”, deixando a pessoa que elogiou desconfortável imaginando se deveria ter elogiado ou não.
Outro exemplo é se o elogio faz referência a alguma característica física da pessoa elogiada. Muito comum se dizer a uma mulher que ela é bonita e ouvir em seguida: “- Que bom, mas ainda preciso emagrecer 5 quilos.”, ou pior ainda “Obrigada, mas estou tão gorda/magra/mal arrumada/sem maquiagem”. Não falta por onde começar a se desmerecer.
E não é só com a mulher que isso ocorre. Quer deixar um homem desconfortável é fazer um elogio que não alcance a virilidade dele (já que neste caso normalmente se infla como um pavão). Entretanto, ao enaltecer o comportamento frente a uma situação boa parte deles não saberá como agir. Não agradecem nem respondem. Tampouco entendem.
Outro dia no elevador e encontrei uns vizinhos cujo filho conheci desde bebê. Hoje o menino deve estar com uns 14 anos. E está lindo. Não somos íntimos, mas mantemos excelentes relações de cordialidade. Como eu não os via há muito, para não repetir o já batido “Nossa, como você cresceu”, avisei que eu iria elogiá-lo (avisei) e tasquei um “você sempre foi muito bonito, mas está ficando um rapaz ainda mais!”, pra quê?! Parecia que ele havia sido esquecido dormindo ao sol do meio dia, de tão vermelho que ficou. E mudo. Sem coragem de me olhar de frente, baixou os olhos. Brinquei ainda com ele, dizendo que ele não precisava se encabular, pois eu não o estava ofendendo, ao contrário. Era somente uma constatação e um elogio.
Mas, voltando ao tópico. Por que tanta dificuldade em aceitar elogios?
Primeiramente pode ser pela impressão – e esta é marcante – de que a pessoa que elogia outra do nada, no fundo, no fundo, quer alguma coisa em troca do elogio. Afinal, por que alguém (ainda que amigo, familiar ou conhecido) nos elogiaria gratuitamente já que não estamos no nosso dia ‘Giselle Bundchen na capa da Vogue’?
Outro motivo pode ser pela ideia de que o elogio não foi sincero. Muita gente desconfia de elogio sem “contraprestação” e ainda, de que seja falso. Sim, existem elogios mais falsos que nota de três reais.
Mas por que não seria sincero? Porque elogiar pode ser também uma forma de manipular o elogiado atuando sobre seu ego e o deslumbre pelo elogio. Neste caso a pessoa que já teve uma experiência assim, fica com o desconfiômetro ligado.
Terceira impressão: questionar o merecimento do elogio. É muito fácil acreditar que não mereçamos estar sendo elogiados. As pessoas buscam reconhecimento, mas não acreditam fazer jus aos elogios, que são a forma direta deste reconhecimento. Estranho, porém verdadeiro.
Há um grupo de pessoas que consegue aceitar ofensas (quando leves) com maior facilidade e sensação de merecimento do que aceita elogios. Neste caso, elas estão tão acostumadas com falas negativas, gozações e com falta de reconhecimento, que se sentem mais à vontade com o insulto do que quando elogiadas.
Porém, sendo elogiado, o que fazer?
Simples: Agradeça e sorria. Abrace o elogio com o sorriso e o coração e o guarde ali silenciosamente. Nada além do agradecimento e do sorriso. Não justifique. Não se justifique. Não estrague o momento.
Pode até querer fazer um elogio recíproco, mas só o faça se for verdadeiro. Caso contrário, não o faça.
Perceba nas ações seguintes da pessoa que te elogiou o comportamento dela. Assim poderá saber se foi sincero, bem intencionado e despretensioso. E caso tenha sido, agradeça e sorria internamente uma vez mais. Percebendo que não foi, agradeça em segredo por ter tido a oportunidade de conhecer melhor as características de tal pessoa e mantenha sua intuição aguçada.
Por fim, lembre-se que quando você elogia alguém, esta pessoa pode ter igualmente estes mesmos pensamentos e sensações em relação a você. Da falta de sinceridade nas suas palavras, da contraprestação a ser paga por ter sido elogiada ou que você pode a estar tentando manipular com o elogio.
Neste caso, a sensação de desconfiança e a intuição dela trabalharão contra você. E, de nada servirá um fazer elogio em outra oportunidade, por mais verdadeiros, desinteressados e honestos que sejam tanto você quanto o elogio.

 

Publicado no site O segredo em 12 de outubro de 2016.

Reflexo de si próprio.

Levei muito tempo para entender aquele ditado que afirma que tudo o que detestamos em outras pessoas reflete o que somos e o que detestamos em nós mesmos.

Eu pensava como, por exemplo, quando afirmava que: “Não gosto de tal pessoa por que ela é grossa comigo”, que significava que eu mesma era grossa com outras pessoas e não percebia. Mas não é isso. O que detestamos ver estampados ali friamente é a nossa incapacidade de nos fazermos escutar e dar um basta na situação – seja conosco ou com terceiros.

Ouço com frequência a frase: Só tem esperto onde tem um otário. E é mais ou menos nesse sentido que se dá esse reflexo.

Alguém te faz de gato e sapato e você detesta isso? Te desrespeita ou desmerece e você mantém o relacionamento e fica falando para os outros o quanto detesta ser tratado assim. Fala que o fulano é odioso etc. Bom, você não detesta a pessoa. Você é que permite ser tratado assim.

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Nessa linha de raciocínio dá para perceber que você é que não sabe se posicionar para fazê-la parar com este comportamento. Muitas vezes por acreditar que ao dizer não seus amigos e colegas deixarão gostar de você ou vão desconsiderar a sua amizade. Ou que ao se posicionar contra este comportamento deixará de se relacionar com o fulano.

E não é por ai.

Amizade é importante, mas respeito próprio é ainda mais. E amigo verdadeiro compreende um não como resposta. Se o amigo é ‘folgado pra cima de você’, dê um ‘catoco’ nele. Fale diretamente que não aceita mais aquele comportamento, que está se sentido usado e que não tolerará outra vez esse tipo de atitude. Então, terá certeza se ele muda sua conduta ou não. Se te respeita ou não. E, se não mudar e você continuar aceitando, bom, só tem esperto onde tem um otário.

O mesmo se dá nas relações familiares e amorosas. As pessoas só vão até onde as permitimos ir. Se você reparar é certo que conheça pessoas com as quais não se sinta a vontade nem de pedir um favor que seja, porque elas nunca te deram abertura para tanto. Fazer piada então, nem pensar. É mais ou menos este o pensamento. Não faz brincadeiras com ela porque ela não te permite.

Muitas vezes as pessoas têm tanto medo de magoar os outros – amigos, parentes, colegas de trabalho, relacionamentos amorosos – que não se dão conta de o quanto está se machucando internamente, se amargurando. E a garganta sofre, a voz some. A tristeza se apodera e o que era para ser uma boa história vira um conto de terror.

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Lembre-se, por outro lado, que vivemos em uma estrada de mão dupla. O que você exige dos outros, é o mesmo que esperam de você. Ou seja,  não reclame de alguém folgado se você é folgado para com os outros também. Pode ser que eles não estejam sabendo te dar o mesmo ‘catoco’ e te dizer não e você esteja se aproveitando disso. É a brincadeira do não querer explorar, mas já explorando.

A vantagem é que com o tempo aprendemos. Aprendemos a nos respeitar mais e a respeitar igualmente os que convivem conosco. A dizer os nãos quando realmente percebemos que alguém pretende ultrapassar nossos limites. Aprendemos a exigir menos das pessoas  e a trabalhar melhor os reflexos estampados do que realmente somos.

*Publicado no site osegredo.com.br  dia 01/10/2016.