Arquivo mensal: novembro 2016

Dona Morte não pede passagem.

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Estamos traumatizados. Mesmo quem não tinha ouvido falar do time do Chapecoense agora chora. Chora pelo susto, chora pela imprevisibilidade, chora pela juventude reunida naquele grupo. Chora uma nação futebolística e um país tão sofrido.

Chora por, além dos jogadores, comissão técnica, convidados e jornalistas, por não entender a razão do tal “chamamento”. Chora pelo vácuo que a repetição das notícias em todos os meios de comunicação vai criando. Mesmo quem não gosta de futebol, quem nem sabe onde fica Chapecó se solidarizou.

Que lições podemos tirar deste momento de dor?

Um: A dona Morte não pede passagem. Ela chega sorrateiramente  e bum,  está feito o estrago.

Dois: Não sabemos nada nesta vida. Nada mesmo além de que as duas certezas máximas são: Nascemos e morremos. Sem saber quando, como nem o porquê. Podemos até filosofar acerca do assunto, buscar estudos sociológicos, religiosos, antropológicos e todos os “gicos’ do dicionário. Ainda assim, não sabemos. Nos agarramos às teorias com as quais mais nos identificamos para justificar nossa pretensa aceitação. Ainda mais quando dona Morte vem assim – de roldão e faz um strike.

Três:  A vida é curta. Muito curta.

Nem que tenhamos cem anos, ela sempre parecerá curta em relação ao universo, à grandiosidade inexplicável de nossa  existência. Um minuto pode ser muito tempo quando da espera pelo remédio por quem agoniza de dor; e ao contrário pode ser muito longo ao se tomar a injeção que curará. Pode ser muito curto quando damos um beijo de despedida, e pode ser muito longo quando esperamos o retorno daquele que está para chegar.

Quatro: Não deixemos para amanhã o amor que  podemos viver hoje. Entreguemo-nos, amemos, soframos, nos apaixonemos mais e mais todos os dias. Não esperemos o encantamento vendido nos contos de fadas. Vivamos o possível, o verossímel.

Cinco: Não deixemos  para o amanhã quem desejamos ser hoje. Que mantenhamos o foco, a busca por conhecimento e  aprimoramento. Com os nãos e sins que os dias nos trazem, procuremos ser o melhor que podemos ser  hoje.

Seis: Abracemos quem nos são queridos, pais, mães, parentes, amigos, companheiros, cúmplices de vida e de festa. Abraço retendo o calor de todos num aperto longo. Coração com coração. Entrega total neste momento.

Sete: Respeitemos o humano e o divino que vive em nós. Não precisa ser  o santo, o curador da humanidade. Simplesmente que nossas ações  para com a humanidade sejam como gostaríamos  de sermos tratados, cada um a seu modo. Sem mais, nem menos.

Oito: Respeitemos  o humano e o divino que vive ao nosso lado, não importa qual o papel dele no desenho da vida. É só repetir  para com os outros a norma número sete desta lista.

Nove: Tratemos o Universo com carinho. Ele sobreviverá sem nossa presença, mas nós, ao contrário, não sobreviveremos sem este ambiente. Não digo no sentido de nos  tornarmos monge  ou ermitões. Mas o do não desperdício dos recursos naturais  e científicos à nossa disposição.

Dez: Sejamos gratos. Gratidão até pelo que  não entendemos  ou não temos. Gratidão pelas oportunidades, pelas realizações passadas e vindouras. Gratidão pela Luz que clareia a nossa própria escuridão. Grato pela escuridão que faz com que não sejamos ofuscados por esta mesma Luz num ciclo constante de novos desafios, novos encontros e buscas.

Lembremos que além de não pedir passagem a dona Morte é soberana e nos aplica incansavelmente  o ensinamento da finitude, na forma e nas datas que menos esperamos.

Só nos resta aceitar e retomar os ensinamentos mais e mais.

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Namastê!

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Não guarde nada para uma ocasião especial. Ocasião especial é cada dia que se vive.

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Acabo de tirar esta frase num daqueles testes que aparecem diariamente nas suas redes sociais. Deverá ser a frase para 2017.

Houve um tempo sim que eu guardava algumas coisas para usar em ocasiões especiais. A blusa nova ficou no armário por anos esperando a ocasião especial. O lenço de seda que a amiga me presenteou no aniversário, esperando outra. A toalha de linho branca com renda esperando o jantar dos sonhos.

Bom, a blusa, na ocasião especial já não estava na moda e diria eu, um pouco apertada pelos quilos a mais da vida. O lenço de seda, nem lembrava mais dele, quando num dia de faxina geral do armário o encontrei e aproveitei para prender o cabelo que estava desmazelado e me atrapalhando. A linda toalha de linho branca foi dada de presente para uma colega, pois troquei de mesa e ela, nunca usada, foi fazer as vezes de toalha de todo dia, linda e imaculada, na casa da minha amiga.

Tudo certo que não precisamos sair de rainha da Inglaterra, com todas as joias da coroa, para ir ao supermercado, mas afinal, o que é ocasião especial?

Ocasião especial deveria ser tipo assim: Você chega cansada, arrasada, pés doloridos, cabelo desarrumado e precisa do seu banho urgentemente. Sua casa não tem banheira, ou se tem, ela está colada à parede, do lado oposto ao vaso sanitário e à pia (nada igual aos filmes que tanto gosta onde a banheira fica no centro do ambiente, tem torneiras douradas altas, mil sabonetinhos e velas ao redor). Dá para fazer disso uma ocasião especial? Acredito que sim. Leve seu celular para o banheiro (por favor, nunca faça selfie no banheiro, é um horror). Coloque a sua playlist ou um site de músicas suaves para tocar. Pegue uma toalha macia. Busque um sabonete perfumado que você goste, um óleo corporal.

Dá para deixar à meia luz (só a luz do espelho)? Deixe, se gostar. Não dá; não deu. Pronto. Nem por isso deixará de ser especial. Comece seu banho, tanto faz no chuveiro ou na banheira, com carinho, com atenção aos movimentos ao passar o óleo, o sabonete. Recorde do uso da câmera lenta dos filmes. Faça os movimentos devagar, com ternura, diferente do seu banho a jato de todo dia.

Lave os cabelos com delicadeza. Passe os cremes. Preste atenção ao que está fazendo.

Na hora de se enxugar, pegue sua toalha macia e somente a encoste em você e a deixe absorver a água de seu corpo. Agora não é hora de fazer esfoliação com a toalha! Ainda que seu corpo fique úmido, faça desse ato um momento de carinho pessoal. De você para com você. E assim com a roupa que for vestir em seguida. Dê preferência para algo macio, largado, livre, leve e solto. Ao final uma gota do seu perfume predileto. E “voilà”!  Linda para mais um dia.

Mais descansada? Ainda tem o jantar. Macarrão instantâneo? Sanduíche? O que quer que seja vai ser delicioso. Organize a mesa ou a bandeja se assim preferir. Cubra com uma toalha ou jogo americano do dia a dia desde que limpos. Xerete na internet como arrumar uma mesa linda. Você verá que com um prato, um copo, um guardanapo e um jogo de talher, poderá fazer coisas incríveis, só de arrumá-los diferente do que faz no seu dia a dia. Use uma fita, um laço, uma flor (ainda que artificial), um vasinho.

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Organizada a mesa seu ovo frito com tomate parecerá um banquete. Sente-se e deguste como se fosse um manjar dos deuses. Eu prefiro sem televisão. Só com música.

Há alguns anos fui visitar uma amiga que me deu uma grande lição de vida neste aspecto. Eu casada com filhos, ela solteira e viajante. Dois estilos totalmente diferentes. O apartamento dela era minúsculo, decoração simples, mas aconchegante. Ela havia me chamado para o jantar. Estranhei porque a cozinha era um balcão. Em vez da geladeira um frigobar, microondas e um fogão de duas bocas (destes que aparecem na televisão em programas de culinária). Eis que ela abre o frigobar e tira dois empadões individuais que  havia comprado nem sei onde, e uma salada. Enquanto colocava os empadões no microondas, retirou um enfeite que havia na mesa de canto redonda alta, colocou ao lado do balcão cozinha, buscou duas peças de jogo americano pequeno brancos de rendinha, um castiçal prateado com uma vela longa que estava junto às louças na cozinha, dois guardanapos coloridos decorados, talheres e, “tcharan”, uma mesa de jantar maravilhosa. Eu sentada no sofá, ela numa banqueta lateral. Um jantar de gala para duas amigas colocarem a vida em dia à luz de velas; uma salada e um empadão divino.

Aproveite seus momentos, sejam eles acompanhados ou não. Use seu melhor vestido numa noite de ovo frito. O ovo é seu! O vestido é seu! O momento é seu. A vida é sua. Não existe certo ou errado. Alguns podem achar estranho, mas eles estão lá fritando o ovo para você? Vão lavar seu vestido no dia seguinte? Não, não vão.

Não protele para um futuro incerto usar um presente ou algo que você tenha comprado. Faça você a sua ocasião especial, hoje!

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Imagens – internet

Para onde vão?

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Para onde vão nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?

Para onde vão as belas canções que deixamos de cantar em voz alta por vergonha de desafinar?

Para onde vão os passos de dança que não quisemos dançar por nos sentirmos sem graça? Os rodopios não rodados, os bangheads não chacoalhados, as firulas não tentadas quando deixamos de bailar?

Para onde vão os sorrisos no instante em que deixamos de sorrir medo de sermos mal interpretados ou simples preguiça de deixa-los brilhar?

Para onde vão os desenhos que imaginamos e não colocamos no papel?

Para onde vão os sabores das  guloseimas que por receio de engordar ficaram sem ser experimentadas?

Você sabe me dizer para onde vão os sonhos que ao crescermos deixamos de sonhar? Ou a água das flores que deixamos de regar?

Para onde vão as palavras do dicionário que não procuramos aprender? Ou os contos dos livros que voluntariamente deixamos de ler?

Você tem ideia de para onde vão as criaturas nas nuvens quando deixamos de dar-lhes  nome e forma enquanto estamos deitados na grama em um dia de sol?

E as linhas das estradas que ficam para trás no momento que buscamos um novo destino?

Estou procurando saber para onde vão os amores que temos em nós quando deixamos de senti-los.

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Para onde vão nossos olhares apaixonados depois que cerramos os olhos lentamente de tanto prazer?

Para onde vão os diferentes cansaços de nossos dias corridos? Os encontros com os amigos que não nos dispusemos participar?

Para onde vão os beijos insinuados e não dados, os abraços que poderiam ser apertados, o carinho não acarinhado quando a distância ou o tempo não mais os permitem?

Para onde vão o infinito, o horizonte e a escuridão quando cansamos de buscar?

Só eu quero saber? Só eu tenho esta necessidade de questionar?

Me indago ainda para onde vão todas as perguntas  quando as deixamos de fazer e as respostas que explicitamente muitas vezes nos negamos a  dar.

*Imagens – Kyle Thompson

 

Das #hashtags# da vida. #Qualasua?

Dias atrás li a hashtag #partiuadauto  em uma mídia social e, no contexto brincalhão da postagem, me deu o que pensar.

Para quem não sabe Adauto Botelho foi, junto com dois colegas, um dos fundadores em 1921 do Sanatório Botafogo, no Rio de Janeiro e o tornou um dos mais famosos hospitais para doentes mentais do país (ainda não se usava o termo hospital psiquiátrico), e ele, um dos mais renomados psiquiatras e referência nacional em saúde mental até hoje.

A hashtag muito simples e divertida, politicamente incorreta, faz parte do imaginário social quando se refere a pessoas não necessariamente enfermas, mas  gente  ‘meio ou totalmente fora da casinha’ nas ações do dia-a-dia ou em seus relacionamentos sociais e amorosos. Usada no sentido de relacionamentos com gente diferente, ora possivelmente enferma, ora simplesmente fora dos padrões sociais vigentes.

felicidade

Me fez pensar em diversos casos em que nos relacionamos com pessoas ou situações que nos fazem mal psicologicamente, conscientemente ou não, e  permanecemos regando esse estado de loucura.

Podem ser situações tais como:

  1. Relacionamento abusivo. Com certeza você conheceu ou já se relacionou com alguma pessoa ciumenta, do tipo que quebra copos e atira no companheiro o que tiver à mão ou parte para agressão por qualquer discussão. E, permaneceu no relacionamento porque acreditava que toda essa loucura era prova de amor. (Espero que só conheça, e que não seja você o abusador nem o abusado).
  1. Sherlock Holmes. Vê sombra de “outro” em qualquer folha de papel rabiscada? Faz revista em bolsos, bolsas, malas e todo dia, toda hora, todo instante checa as mensagens do celular, tablets, pcs e ainda exige as senhas pessoais da sua cara metade. Algumas vezes ainda, porque o comportamento é recíproco ou porque o vigiado até gosta e se sente amado, mantêm-se ambos nesta loucura desvairada em nome de um arremedo de amor e cuidado.
  1. Situações profissionais enfrentadas em um local de trabalho insalubre. Não a insalubridade definidas nas NR trabalhistas, mas sim porque todos os que trabalham no local não conseguem estabelecer uma boa relação com seus colegas. Ou estão insatisfeitos com o trabalho que desenvolvem por inaptidão, ou inadequação à função exercida. Há também os que permanecem na empresa porque precisam do salário no fim do mês, todavia detestam o que fazem.
  1. Minha tribo, o que estou fazendo aqui? Há pessoas por necessidade de pertencimento em algum grupo social se aviltam em permanecer com outros os quais não têm nada comum, somente por medo de uma pretensa solidão, ou vontade de ser o que esses outros aparentam ser naquele grupo. Aquela loucura adolescente de estar com uma tribo e ser reconhecido externamente como pertencente a ela. Quem nunca?
  1. O enturmado deslocado. Permanecer em festas, espetáculos, passeatas ou torcidas organizadas, por exemplo, não se sentindo confortável naquela situação, simplesmente por não saber dizer Não, obrigado. Vou ficar em casa lendo um livro ou jogando futebol de botão com meu avô. Não é o caso de vez ou outra entrar numa fria com os amigos ou colegas. É o comportamento reiterado de se colocar nesta posição.

Há vários outros exemplos de situações fora da casinha. A decisão de permanecer nela ou não depende de autoconhecimento e confiança. Há, porém, quem goste e necessite  viver nessa loucura por mil razões.  O melhor seria cada um ter consciência do que está procurando,  o que está vivendo e o resultado de suas escolhas. Nesse caso a hashtag poderia ser outra, como #partiufelicidade!.

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Publicado no site O segredo no dia de hoje.

*Fotos acervo e internet.