Arquivo mensal: dezembro 2016

É mais difícil faxinar a alma que a casa toda.

 

liberdade
O poema Cortar o Tempo, cuja autoria até hoje é discutida, singelamente profetiza

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão;

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez

Com outro número e outra vontade de acreditar que daqui adiante vai ser diferente…”

 

As festas de fim de ano no mundo ocidental, não somente em sentido religioso, representam o encerramento de um ciclo e o início de outro. A cada 365 dias as promessas feitas meses atrás nem são mais lembradas. Por outro lado há sempre quem esteja estabelecendo outra lista de resoluções para serem concretizadas ou descumpridas.

Muita gente prepara a casa para os festejos natalinos. Limpa armários, separa roupas, brinquedos e apetrechos para doação. Outros aproveitam para mudar os móveis de lugar, trocar  enfeites, almofadas, quadros e vasos fazendo com que os ambientes pareçam remodelados.  Outros ainda aproveitam para faxinar geral – do porão ao sótão, passando pelo jardim. Redecoram  e pintam a casa, renovam o lar. E quando da noite de Natal, o nascimento deste novo ambiente se faz notar.

Entretanto, neste tempo de renovação de valores, o importante seria mesmo faxinar a alma.

Limpar, trocar, remodelar, pintar, redecorar é extremamente positivo. O externo, todavia, muitas vezes tão bem cuidado, não reflete verdadeiramente o estado da alma. Casa linda, alma pesada. E esta renovação deve ser trabalhada internamente dentro de cada um de nós para que se dê o verdadeiro despertar.

Erradicar os maus pensamentos e as mágoas. Colocá-los em um lixo profundo onde não pudessem contaminar nada e nem ninguém.

Trocar comportamentos destrutivos por outros que façam aflorar criatividade, musicalidade, e prosperidade.

Remodelar as lembranças dolorosas, aceitando-as como desencadeadoras de aprendizados  e lições que, apesar de doloridas, ensinaram ou marcaram profundamente a história de cada um.

Pintar a própria existência com as cores desejadas e não com cores sugeridas ou forçadas por terceiros, por obrigação do meio social.

Plantar a semente do bem nos vasinhos da fala, da escuta e da visão. Arrancando dali as ervas daninhas da fofoca; do preconceito e do pré-julgamento.

Uma faxina bem feita necessita de produtos de limpeza eficientes. O  autoconhecimento é o mais poderoso de todos e precisa ser trabalhado continuamente. A faxina precisa de conservação para manter corpo-mente-coração limpos.

A casa nem sempre reflete a alma. Algumas vezes reflete o gosto, as condições financeiras  do dono,  mas não a alma.  O coração, as palavras e os olhos sim. E coração limpo e sereno é como um sol brilhante. Onde quer que chegue ilumina e desperta quem se encontra ao redor.

Alma lavada. Alma faxinada. Bondade. Perfeição. Luz. Com certeza é mais fácil faxinar a casa toda do que a própria alma.

Um covarde é incapaz de demonstrar amor. Isso é privilégio dos corajosos.

Essa frase atribuída a Mahatma Ghandi é  uma forma mais elaborada à atualmente falada Amar é  para os fortes. Mas por que o seria?

Acredito que seria porque amar é doação. Doação de tempo, de pensamento, de cuidado. E quem é covarde não se presta a tanto – não abre mão de seu tempo, de pensamento ou cuidado por medo de perder sua identidade.

Porque amar é entrega. Entrega do eu verdadeiro, ocultado nos recônditos mais profundos de cada um. Entrega da mente e do corpo. E um covarde não se permite ser desvendado, exposto por medo de perder o halo de força.

Amar é compartilhamento. Compartilhar o mesmo prato, os mesmos objetivos, a busca pela felicidade. E os covardes são egoístas e Seus temores superam a ideia de repartir com alguém que possa ser mais forte que ele.

Amar é multiplicar. Multiplicar o bem querer, a admiração, o desejo e amparo. E um covarde só multiplica a sua própria vergonha.

Amar envolve. Envolve os sentidos. Envolve o pensamento. Envolve a grandeza do ser. E o covarde tem medo de envolvimento e responsabilidade. Não se permite ser abraçado e abraçar pelo sentimento.

Amar é tão simples, porém não é fácil. É se deixar levar, desprender as amarras e ao mesmo tempo fazer o possível para manter o rumo. É desejar estar junto e igualmente deixar partir. É crescer mutuamente e ainda assim ser a escada do outro alguém.

Amar é mesmo um privilégio dos corajosos. Dos que se lançam no espaço muitas vezes sem uma rede de proteção. Dos que se entregam mesmo quando não correspondidos. Dos que compartilham ainda que sejam as migalhas do pão. Amar é  regalia dos que se permitem mostrar o que há de mais oculto de si, dos que assumem perante os outros este sentimento tão desvairado e complexo.

Amar é para os fortes. Daqueles que ainda que com medo do porvir, reconhecem que o desconhecido é desafiador e seguem em frente. Que mesmo com lágrimas nos olhos têm a certeza de que estão no caminho certo, pois, os covardes tampouco choram ao reconhecer que não sabem amar.

  • publicado no site O segredo dia 12.12.16

Lista de Amores

Ontem enquanto cortava o cabelo encontrei uma ex-vizinha que não via há uns quatro anos. Ao perguntar da filha dela, com sete anos atualmente, ela contou que a menina outro dia lhe perguntou quando poderia começar a namorar. Outras pessoas que se encontravam lá naquela hora começaram a falar como as crianças de hoje são diferentes etc., etc.  O blá, blá, blá continuou e eu me vi ali lembrando que aos seis anos de idade tive minha primeira desilusão amorosa. Seis anos.

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Era festa de enceramento de ano escolar. Eu estava no pré-primário. Nem sei a que corresponde hoje em dia;  acredito que seja a classe de alfabetização. A escola era pequena, perto de nossa casa. Na casa ao lado da escola morava a proprietária da escolinha que tinha um único filho, uns dois anos mais velho que eu e por conta de já estar em escola regular, não desfrutava da escola de sua mãe. Jorge era seu nome e tinha a permissão de entrar e brincar com as crianças somente nos intervalos.

Eu não me lembro de como ele era. Recordo, entretanto, que passava meus recreios com ele. Dividíamos o lanche e brincávamos. Às vezes com outros amiguinhos, mas na maioria das vezes só nós dois – amarelinha; no balanço e gangorra do parquinho; jogos de memória e outros que ficavam liberados naquele horário.

A diretora-mãe o mandava para casa tão logo o recreio acabava e assim os dias passavam.

No final daquele ano escolar houve a festa de encerramento das atividades. Eu de vestido vermelho de cetim para dançar uma coreografia de Charleston. Cetim e franjinhas vermelhas. Não me lembro da coreografia. Não tenho imagem mental de ter dançado, mas tenho no coração nossa conversa enquanto subíamos e descíamos no movimento da gangorra do parquinho ao lado do palco. Falamos que não nos veríamos mais nos dias seguintes e que por isso devíamos acabar nossa amizade naquele momento. E assim o fizemos. Fui para casa chorando com meus pais achando que eu tinha caído da gangorra ou algo assim.

Mudei de escola e nunca mais soube do Jorge. Entretanto, ainda guardo a cena da gangorra, do vestido vermelho e do meu sofrimento. E eu trago este amor até hoje em mim.

Trago tantos outros amores gravados no coração e na mente. Uns marcados mais profundamente, outros superficiais. Todavia, a soma de todos estes amores e desamores me faz ser o que sou e quem eu sou.

Nossa história é escrita com a matemática destes amores.

Amores românticos. Amores assexuais. Amores não correspondidos, perdidos, quebrados e alguns esquecidos. Amores juvenis que parecem ser únicos e que acreditamos que durarão para sempre e que às vezes passam na velocidade das mudanças próprias da idade. Outros deixam marcas inapagáveis.

Amores platônicos por pessoas que nos ensinaram em período escolar – quem não os teve?

E os amores sublimados? Amor por livros, filmes, situações? Aquele tipo de amor que te faz assistir, ler ou reinventar a mesma situação para ter o coração leve outra e outra vez. Um sorriso na alma. Não posso quantificar o número de vezes que já assisti a alguns filmes e não me canso de ver.  Ou quantas vezes eu reli trechos dos livros que mais gostei, fossem eles românticos ou não.

Os amores juvenis da descoberta do mundo e da sexualidade. Amores adultos, com paixão e desejo. E por fim os amores maduros. Não apenas um amor, mas o sentimento de amor que nos abraça. Amor pelo companheiro escolhido e o amor descoberto e incalculável da maternidade.

E olhando para trás podemos ter certeza que todos estes amores estão  gravados em nós.

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E o tempo foi passando. Minha lista de amores é enorme. Tem pessoas. Tem animais. Tem momentos. Minha própria história.

Tem ainda um espaço aberto para os amores que virão. Novos amigos. Livros que vou ler e, com certeza escrever. Espaço para novos desafios e novas descobertas. Tem até espaço – pequeno – para perdas. Porém o espaço para os amores é abissal.

Os capítulos vividos estão no pretérito perfeito. Podem, talvez, ser recontados e . Entretanto, a magia da vida se apresenta na expectativa de viver novas aventuras e de por isso amplificar a lista de amores muito, mas muito mais.