Lista de Amores

Ontem enquanto cortava o cabelo encontrei uma ex-vizinha que não via há uns quatro anos. Ao perguntar da filha dela, com sete anos atualmente, ela contou que a menina outro dia lhe perguntou quando poderia começar a namorar. Outras pessoas que se encontravam lá naquela hora começaram a falar como as crianças de hoje são diferentes etc., etc.  O blá, blá, blá continuou e eu me vi ali lembrando que aos seis anos de idade tive minha primeira desilusão amorosa. Seis anos.

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Era festa de enceramento de ano escolar. Eu estava no pré-primário. Nem sei a que corresponde hoje em dia;  acredito que seja a classe de alfabetização. A escola era pequena, perto de nossa casa. Na casa ao lado da escola morava a proprietária da escolinha que tinha um único filho, uns dois anos mais velho que eu e por conta de já estar em escola regular, não desfrutava da escola de sua mãe. Jorge era seu nome e tinha a permissão de entrar e brincar com as crianças somente nos intervalos.

Eu não me lembro de como ele era. Recordo, entretanto, que passava meus recreios com ele. Dividíamos o lanche e brincávamos. Às vezes com outros amiguinhos, mas na maioria das vezes só nós dois – amarelinha; no balanço e gangorra do parquinho; jogos de memória e outros que ficavam liberados naquele horário.

A diretora-mãe o mandava para casa tão logo o recreio acabava e assim os dias passavam.

No final daquele ano escolar houve a festa de encerramento das atividades. Eu de vestido vermelho de cetim para dançar uma coreografia de Charleston. Cetim e franjinhas vermelhas. Não me lembro da coreografia. Não tenho imagem mental de ter dançado, mas tenho no coração nossa conversa enquanto subíamos e descíamos no movimento da gangorra do parquinho ao lado do palco. Falamos que não nos veríamos mais nos dias seguintes e que por isso devíamos acabar nossa amizade naquele momento. E assim o fizemos. Fui para casa chorando com meus pais achando que eu tinha caído da gangorra ou algo assim.

Mudei de escola e nunca mais soube do Jorge. Entretanto, ainda guardo a cena da gangorra, do vestido vermelho e do meu sofrimento. E eu trago este amor até hoje em mim.

Trago tantos outros amores gravados no coração e na mente. Uns marcados mais profundamente, outros superficiais. Todavia, a soma de todos estes amores e desamores me faz ser o que sou e quem eu sou.

Nossa história é escrita com a matemática destes amores.

Amores românticos. Amores assexuais. Amores não correspondidos, perdidos, quebrados e alguns esquecidos. Amores juvenis que parecem ser únicos e que acreditamos que durarão para sempre e que às vezes passam na velocidade das mudanças próprias da idade. Outros deixam marcas inapagáveis.

Amores platônicos por pessoas que nos ensinaram em período escolar – quem não os teve?

E os amores sublimados? Amor por livros, filmes, situações? Aquele tipo de amor que te faz assistir, ler ou reinventar a mesma situação para ter o coração leve outra e outra vez. Um sorriso na alma. Não posso quantificar o número de vezes que já assisti a alguns filmes e não me canso de ver.  Ou quantas vezes eu reli trechos dos livros que mais gostei, fossem eles românticos ou não.

Os amores juvenis da descoberta do mundo e da sexualidade. Amores adultos, com paixão e desejo. E por fim os amores maduros. Não apenas um amor, mas o sentimento de amor que nos abraça. Amor pelo companheiro escolhido e o amor descoberto e incalculável da maternidade.

E olhando para trás podemos ter certeza que todos estes amores estão  gravados em nós.

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E o tempo foi passando. Minha lista de amores é enorme. Tem pessoas. Tem animais. Tem momentos. Minha própria história.

Tem ainda um espaço aberto para os amores que virão. Novos amigos. Livros que vou ler e, com certeza escrever. Espaço para novos desafios e novas descobertas. Tem até espaço – pequeno – para perdas. Porém o espaço para os amores é abissal.

Os capítulos vividos estão no pretérito perfeito. Podem, talvez, ser recontados e . Entretanto, a magia da vida se apresenta na expectativa de viver novas aventuras e de por isso amplificar a lista de amores muito, mas muito mais.

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