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É mais difícil faxinar a alma que a casa toda.

 

liberdade
O poema Cortar o Tempo, cuja autoria até hoje é discutida, singelamente profetiza

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão;

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez

Com outro número e outra vontade de acreditar que daqui adiante vai ser diferente…”

 

As festas de fim de ano no mundo ocidental, não somente em sentido religioso, representam o encerramento de um ciclo e o início de outro. A cada 365 dias as promessas feitas meses atrás nem são mais lembradas. Por outro lado há sempre quem esteja estabelecendo outra lista de resoluções para serem concretizadas ou descumpridas.

Muita gente prepara a casa para os festejos natalinos. Limpa armários, separa roupas, brinquedos e apetrechos para doação. Outros aproveitam para mudar os móveis de lugar, trocar  enfeites, almofadas, quadros e vasos fazendo com que os ambientes pareçam remodelados.  Outros ainda aproveitam para faxinar geral – do porão ao sótão, passando pelo jardim. Redecoram  e pintam a casa, renovam o lar. E quando da noite de Natal, o nascimento deste novo ambiente se faz notar.

Entretanto, neste tempo de renovação de valores, o importante seria mesmo faxinar a alma.

Limpar, trocar, remodelar, pintar, redecorar é extremamente positivo. O externo, todavia, muitas vezes tão bem cuidado, não reflete verdadeiramente o estado da alma. Casa linda, alma pesada. E esta renovação deve ser trabalhada internamente dentro de cada um de nós para que se dê o verdadeiro despertar.

Erradicar os maus pensamentos e as mágoas. Colocá-los em um lixo profundo onde não pudessem contaminar nada e nem ninguém.

Trocar comportamentos destrutivos por outros que façam aflorar criatividade, musicalidade, e prosperidade.

Remodelar as lembranças dolorosas, aceitando-as como desencadeadoras de aprendizados  e lições que, apesar de doloridas, ensinaram ou marcaram profundamente a história de cada um.

Pintar a própria existência com as cores desejadas e não com cores sugeridas ou forçadas por terceiros, por obrigação do meio social.

Plantar a semente do bem nos vasinhos da fala, da escuta e da visão. Arrancando dali as ervas daninhas da fofoca; do preconceito e do pré-julgamento.

Uma faxina bem feita necessita de produtos de limpeza eficientes. O  autoconhecimento é o mais poderoso de todos e precisa ser trabalhado continuamente. A faxina precisa de conservação para manter corpo-mente-coração limpos.

A casa nem sempre reflete a alma. Algumas vezes reflete o gosto, as condições financeiras  do dono,  mas não a alma.  O coração, as palavras e os olhos sim. E coração limpo e sereno é como um sol brilhante. Onde quer que chegue ilumina e desperta quem se encontra ao redor.

Alma lavada. Alma faxinada. Bondade. Perfeição. Luz. Com certeza é mais fácil faxinar a casa toda do que a própria alma.

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Um covarde é incapaz de demonstrar amor. Isso é privilégio dos corajosos.

Essa frase atribuída a Mahatma Ghandi é  uma forma mais elaborada à atualmente falada Amar é  para os fortes. Mas por que o seria?

Acredito que seria porque amar é doação. Doação de tempo, de pensamento, de cuidado. E quem é covarde não se presta a tanto – não abre mão de seu tempo, de pensamento ou cuidado por medo de perder sua identidade.

Porque amar é entrega. Entrega do eu verdadeiro, ocultado nos recônditos mais profundos de cada um. Entrega da mente e do corpo. E um covarde não se permite ser desvendado, exposto por medo de perder o halo de força.

Amar é compartilhamento. Compartilhar o mesmo prato, os mesmos objetivos, a busca pela felicidade. E os covardes são egoístas e Seus temores superam a ideia de repartir com alguém que possa ser mais forte que ele.

Amar é multiplicar. Multiplicar o bem querer, a admiração, o desejo e amparo. E um covarde só multiplica a sua própria vergonha.

Amar envolve. Envolve os sentidos. Envolve o pensamento. Envolve a grandeza do ser. E o covarde tem medo de envolvimento e responsabilidade. Não se permite ser abraçado e abraçar pelo sentimento.

Amar é tão simples, porém não é fácil. É se deixar levar, desprender as amarras e ao mesmo tempo fazer o possível para manter o rumo. É desejar estar junto e igualmente deixar partir. É crescer mutuamente e ainda assim ser a escada do outro alguém.

Amar é mesmo um privilégio dos corajosos. Dos que se lançam no espaço muitas vezes sem uma rede de proteção. Dos que se entregam mesmo quando não correspondidos. Dos que compartilham ainda que sejam as migalhas do pão. Amar é  regalia dos que se permitem mostrar o que há de mais oculto de si, dos que assumem perante os outros este sentimento tão desvairado e complexo.

Amar é para os fortes. Daqueles que ainda que com medo do porvir, reconhecem que o desconhecido é desafiador e seguem em frente. Que mesmo com lágrimas nos olhos têm a certeza de que estão no caminho certo, pois, os covardes tampouco choram ao reconhecer que não sabem amar.

  • publicado no site O segredo dia 12.12.16

Lista de Amores

Ontem enquanto cortava o cabelo encontrei uma ex-vizinha que não via há uns quatro anos. Ao perguntar da filha dela, com sete anos atualmente, ela contou que a menina outro dia lhe perguntou quando poderia começar a namorar. Outras pessoas que se encontravam lá naquela hora começaram a falar como as crianças de hoje são diferentes etc., etc.  O blá, blá, blá continuou e eu me vi ali lembrando que aos seis anos de idade tive minha primeira desilusão amorosa. Seis anos.

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Era festa de enceramento de ano escolar. Eu estava no pré-primário. Nem sei a que corresponde hoje em dia;  acredito que seja a classe de alfabetização. A escola era pequena, perto de nossa casa. Na casa ao lado da escola morava a proprietária da escolinha que tinha um único filho, uns dois anos mais velho que eu e por conta de já estar em escola regular, não desfrutava da escola de sua mãe. Jorge era seu nome e tinha a permissão de entrar e brincar com as crianças somente nos intervalos.

Eu não me lembro de como ele era. Recordo, entretanto, que passava meus recreios com ele. Dividíamos o lanche e brincávamos. Às vezes com outros amiguinhos, mas na maioria das vezes só nós dois – amarelinha; no balanço e gangorra do parquinho; jogos de memória e outros que ficavam liberados naquele horário.

A diretora-mãe o mandava para casa tão logo o recreio acabava e assim os dias passavam.

No final daquele ano escolar houve a festa de encerramento das atividades. Eu de vestido vermelho de cetim para dançar uma coreografia de Charleston. Cetim e franjinhas vermelhas. Não me lembro da coreografia. Não tenho imagem mental de ter dançado, mas tenho no coração nossa conversa enquanto subíamos e descíamos no movimento da gangorra do parquinho ao lado do palco. Falamos que não nos veríamos mais nos dias seguintes e que por isso devíamos acabar nossa amizade naquele momento. E assim o fizemos. Fui para casa chorando com meus pais achando que eu tinha caído da gangorra ou algo assim.

Mudei de escola e nunca mais soube do Jorge. Entretanto, ainda guardo a cena da gangorra, do vestido vermelho e do meu sofrimento. E eu trago este amor até hoje em mim.

Trago tantos outros amores gravados no coração e na mente. Uns marcados mais profundamente, outros superficiais. Todavia, a soma de todos estes amores e desamores me faz ser o que sou e quem eu sou.

Nossa história é escrita com a matemática destes amores.

Amores românticos. Amores assexuais. Amores não correspondidos, perdidos, quebrados e alguns esquecidos. Amores juvenis que parecem ser únicos e que acreditamos que durarão para sempre e que às vezes passam na velocidade das mudanças próprias da idade. Outros deixam marcas inapagáveis.

Amores platônicos por pessoas que nos ensinaram em período escolar – quem não os teve?

E os amores sublimados? Amor por livros, filmes, situações? Aquele tipo de amor que te faz assistir, ler ou reinventar a mesma situação para ter o coração leve outra e outra vez. Um sorriso na alma. Não posso quantificar o número de vezes que já assisti a alguns filmes e não me canso de ver.  Ou quantas vezes eu reli trechos dos livros que mais gostei, fossem eles românticos ou não.

Os amores juvenis da descoberta do mundo e da sexualidade. Amores adultos, com paixão e desejo. E por fim os amores maduros. Não apenas um amor, mas o sentimento de amor que nos abraça. Amor pelo companheiro escolhido e o amor descoberto e incalculável da maternidade.

E olhando para trás podemos ter certeza que todos estes amores estão  gravados em nós.

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E o tempo foi passando. Minha lista de amores é enorme. Tem pessoas. Tem animais. Tem momentos. Minha própria história.

Tem ainda um espaço aberto para os amores que virão. Novos amigos. Livros que vou ler e, com certeza escrever. Espaço para novos desafios e novas descobertas. Tem até espaço – pequeno – para perdas. Porém o espaço para os amores é abissal.

Os capítulos vividos estão no pretérito perfeito. Podem, talvez, ser recontados e . Entretanto, a magia da vida se apresenta na expectativa de viver novas aventuras e de por isso amplificar a lista de amores muito, mas muito mais.

Dona Morte não pede passagem.

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Estamos traumatizados. Mesmo quem não tinha ouvido falar do time do Chapecoense agora chora. Chora pelo susto, chora pela imprevisibilidade, chora pela juventude reunida naquele grupo. Chora uma nação futebolística e um país tão sofrido.

Chora por, além dos jogadores, comissão técnica, convidados e jornalistas, por não entender a razão do tal “chamamento”. Chora pelo vácuo que a repetição das notícias em todos os meios de comunicação vai criando. Mesmo quem não gosta de futebol, quem nem sabe onde fica Chapecó se solidarizou.

Que lições podemos tirar deste momento de dor?

Um: A dona Morte não pede passagem. Ela chega sorrateiramente  e bum,  está feito o estrago.

Dois: Não sabemos nada nesta vida. Nada mesmo além de que as duas certezas máximas são: Nascemos e morremos. Sem saber quando, como nem o porquê. Podemos até filosofar acerca do assunto, buscar estudos sociológicos, religiosos, antropológicos e todos os “gicos’ do dicionário. Ainda assim, não sabemos. Nos agarramos às teorias com as quais mais nos identificamos para justificar nossa pretensa aceitação. Ainda mais quando dona Morte vem assim – de roldão e faz um strike.

Três:  A vida é curta. Muito curta.

Nem que tenhamos cem anos, ela sempre parecerá curta em relação ao universo, à grandiosidade inexplicável de nossa  existência. Um minuto pode ser muito tempo quando da espera pelo remédio por quem agoniza de dor; e ao contrário pode ser muito longo ao se tomar a injeção que curará. Pode ser muito curto quando damos um beijo de despedida, e pode ser muito longo quando esperamos o retorno daquele que está para chegar.

Quatro: Não deixemos para amanhã o amor que  podemos viver hoje. Entreguemo-nos, amemos, soframos, nos apaixonemos mais e mais todos os dias. Não esperemos o encantamento vendido nos contos de fadas. Vivamos o possível, o verossímel.

Cinco: Não deixemos  para o amanhã quem desejamos ser hoje. Que mantenhamos o foco, a busca por conhecimento e  aprimoramento. Com os nãos e sins que os dias nos trazem, procuremos ser o melhor que podemos ser  hoje.

Seis: Abracemos quem nos são queridos, pais, mães, parentes, amigos, companheiros, cúmplices de vida e de festa. Abraço retendo o calor de todos num aperto longo. Coração com coração. Entrega total neste momento.

Sete: Respeitemos o humano e o divino que vive em nós. Não precisa ser  o santo, o curador da humanidade. Simplesmente que nossas ações  para com a humanidade sejam como gostaríamos  de sermos tratados, cada um a seu modo. Sem mais, nem menos.

Oito: Respeitemos  o humano e o divino que vive ao nosso lado, não importa qual o papel dele no desenho da vida. É só repetir  para com os outros a norma número sete desta lista.

Nove: Tratemos o Universo com carinho. Ele sobreviverá sem nossa presença, mas nós, ao contrário, não sobreviveremos sem este ambiente. Não digo no sentido de nos  tornarmos monge  ou ermitões. Mas o do não desperdício dos recursos naturais  e científicos à nossa disposição.

Dez: Sejamos gratos. Gratidão até pelo que  não entendemos  ou não temos. Gratidão pelas oportunidades, pelas realizações passadas e vindouras. Gratidão pela Luz que clareia a nossa própria escuridão. Grato pela escuridão que faz com que não sejamos ofuscados por esta mesma Luz num ciclo constante de novos desafios, novos encontros e buscas.

Lembremos que além de não pedir passagem a dona Morte é soberana e nos aplica incansavelmente  o ensinamento da finitude, na forma e nas datas que menos esperamos.

Só nos resta aceitar e retomar os ensinamentos mais e mais.

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Namastê!

Não guarde nada para uma ocasião especial. Ocasião especial é cada dia que se vive.

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Acabo de tirar esta frase num daqueles testes que aparecem diariamente nas suas redes sociais. Deverá ser a frase para 2017.

Houve um tempo sim que eu guardava algumas coisas para usar em ocasiões especiais. A blusa nova ficou no armário por anos esperando a ocasião especial. O lenço de seda que a amiga me presenteou no aniversário, esperando outra. A toalha de linho branca com renda esperando o jantar dos sonhos.

Bom, a blusa, na ocasião especial já não estava na moda e diria eu, um pouco apertada pelos quilos a mais da vida. O lenço de seda, nem lembrava mais dele, quando num dia de faxina geral do armário o encontrei e aproveitei para prender o cabelo que estava desmazelado e me atrapalhando. A linda toalha de linho branca foi dada de presente para uma colega, pois troquei de mesa e ela, nunca usada, foi fazer as vezes de toalha de todo dia, linda e imaculada, na casa da minha amiga.

Tudo certo que não precisamos sair de rainha da Inglaterra, com todas as joias da coroa, para ir ao supermercado, mas afinal, o que é ocasião especial?

Ocasião especial deveria ser tipo assim: Você chega cansada, arrasada, pés doloridos, cabelo desarrumado e precisa do seu banho urgentemente. Sua casa não tem banheira, ou se tem, ela está colada à parede, do lado oposto ao vaso sanitário e à pia (nada igual aos filmes que tanto gosta onde a banheira fica no centro do ambiente, tem torneiras douradas altas, mil sabonetinhos e velas ao redor). Dá para fazer disso uma ocasião especial? Acredito que sim. Leve seu celular para o banheiro (por favor, nunca faça selfie no banheiro, é um horror). Coloque a sua playlist ou um site de músicas suaves para tocar. Pegue uma toalha macia. Busque um sabonete perfumado que você goste, um óleo corporal.

Dá para deixar à meia luz (só a luz do espelho)? Deixe, se gostar. Não dá; não deu. Pronto. Nem por isso deixará de ser especial. Comece seu banho, tanto faz no chuveiro ou na banheira, com carinho, com atenção aos movimentos ao passar o óleo, o sabonete. Recorde do uso da câmera lenta dos filmes. Faça os movimentos devagar, com ternura, diferente do seu banho a jato de todo dia.

Lave os cabelos com delicadeza. Passe os cremes. Preste atenção ao que está fazendo.

Na hora de se enxugar, pegue sua toalha macia e somente a encoste em você e a deixe absorver a água de seu corpo. Agora não é hora de fazer esfoliação com a toalha! Ainda que seu corpo fique úmido, faça desse ato um momento de carinho pessoal. De você para com você. E assim com a roupa que for vestir em seguida. Dê preferência para algo macio, largado, livre, leve e solto. Ao final uma gota do seu perfume predileto. E “voilà”!  Linda para mais um dia.

Mais descansada? Ainda tem o jantar. Macarrão instantâneo? Sanduíche? O que quer que seja vai ser delicioso. Organize a mesa ou a bandeja se assim preferir. Cubra com uma toalha ou jogo americano do dia a dia desde que limpos. Xerete na internet como arrumar uma mesa linda. Você verá que com um prato, um copo, um guardanapo e um jogo de talher, poderá fazer coisas incríveis, só de arrumá-los diferente do que faz no seu dia a dia. Use uma fita, um laço, uma flor (ainda que artificial), um vasinho.

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Organizada a mesa seu ovo frito com tomate parecerá um banquete. Sente-se e deguste como se fosse um manjar dos deuses. Eu prefiro sem televisão. Só com música.

Há alguns anos fui visitar uma amiga que me deu uma grande lição de vida neste aspecto. Eu casada com filhos, ela solteira e viajante. Dois estilos totalmente diferentes. O apartamento dela era minúsculo, decoração simples, mas aconchegante. Ela havia me chamado para o jantar. Estranhei porque a cozinha era um balcão. Em vez da geladeira um frigobar, microondas e um fogão de duas bocas (destes que aparecem na televisão em programas de culinária). Eis que ela abre o frigobar e tira dois empadões individuais que  havia comprado nem sei onde, e uma salada. Enquanto colocava os empadões no microondas, retirou um enfeite que havia na mesa de canto redonda alta, colocou ao lado do balcão cozinha, buscou duas peças de jogo americano pequeno brancos de rendinha, um castiçal prateado com uma vela longa que estava junto às louças na cozinha, dois guardanapos coloridos decorados, talheres e, “tcharan”, uma mesa de jantar maravilhosa. Eu sentada no sofá, ela numa banqueta lateral. Um jantar de gala para duas amigas colocarem a vida em dia à luz de velas; uma salada e um empadão divino.

Aproveite seus momentos, sejam eles acompanhados ou não. Use seu melhor vestido numa noite de ovo frito. O ovo é seu! O vestido é seu! O momento é seu. A vida é sua. Não existe certo ou errado. Alguns podem achar estranho, mas eles estão lá fritando o ovo para você? Vão lavar seu vestido no dia seguinte? Não, não vão.

Não protele para um futuro incerto usar um presente ou algo que você tenha comprado. Faça você a sua ocasião especial, hoje!

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Imagens – internet

Para onde vão?

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Para onde vão nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?

Para onde vão as belas canções que deixamos de cantar em voz alta por vergonha de desafinar?

Para onde vão os passos de dança que não quisemos dançar por nos sentirmos sem graça? Os rodopios não rodados, os bangheads não chacoalhados, as firulas não tentadas quando deixamos de bailar?

Para onde vão os sorrisos no instante em que deixamos de sorrir medo de sermos mal interpretados ou simples preguiça de deixa-los brilhar?

Para onde vão os desenhos que imaginamos e não colocamos no papel?

Para onde vão os sabores das  guloseimas que por receio de engordar ficaram sem ser experimentadas?

Você sabe me dizer para onde vão os sonhos que ao crescermos deixamos de sonhar? Ou a água das flores que deixamos de regar?

Para onde vão as palavras do dicionário que não procuramos aprender? Ou os contos dos livros que voluntariamente deixamos de ler?

Você tem ideia de para onde vão as criaturas nas nuvens quando deixamos de dar-lhes  nome e forma enquanto estamos deitados na grama em um dia de sol?

E as linhas das estradas que ficam para trás no momento que buscamos um novo destino?

Estou procurando saber para onde vão os amores que temos em nós quando deixamos de senti-los.

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Para onde vão nossos olhares apaixonados depois que cerramos os olhos lentamente de tanto prazer?

Para onde vão os diferentes cansaços de nossos dias corridos? Os encontros com os amigos que não nos dispusemos participar?

Para onde vão os beijos insinuados e não dados, os abraços que poderiam ser apertados, o carinho não acarinhado quando a distância ou o tempo não mais os permitem?

Para onde vão o infinito, o horizonte e a escuridão quando cansamos de buscar?

Só eu quero saber? Só eu tenho esta necessidade de questionar?

Me indago ainda para onde vão todas as perguntas  quando as deixamos de fazer e as respostas que explicitamente muitas vezes nos negamos a  dar.

*Imagens – Kyle Thompson

 

Das #hashtags# da vida. #Qualasua?

Dias atrás li a hashtag #partiuadauto  em uma mídia social e, no contexto brincalhão da postagem, me deu o que pensar.

Para quem não sabe Adauto Botelho foi, junto com dois colegas, um dos fundadores em 1921 do Sanatório Botafogo, no Rio de Janeiro e o tornou um dos mais famosos hospitais para doentes mentais do país (ainda não se usava o termo hospital psiquiátrico), e ele, um dos mais renomados psiquiatras e referência nacional em saúde mental até hoje.

A hashtag muito simples e divertida, politicamente incorreta, faz parte do imaginário social quando se refere a pessoas não necessariamente enfermas, mas  gente  ‘meio ou totalmente fora da casinha’ nas ações do dia-a-dia ou em seus relacionamentos sociais e amorosos. Usada no sentido de relacionamentos com gente diferente, ora possivelmente enferma, ora simplesmente fora dos padrões sociais vigentes.

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Me fez pensar em diversos casos em que nos relacionamos com pessoas ou situações que nos fazem mal psicologicamente, conscientemente ou não, e  permanecemos regando esse estado de loucura.

Podem ser situações tais como:

  1. Relacionamento abusivo. Com certeza você conheceu ou já se relacionou com alguma pessoa ciumenta, do tipo que quebra copos e atira no companheiro o que tiver à mão ou parte para agressão por qualquer discussão. E, permaneceu no relacionamento porque acreditava que toda essa loucura era prova de amor. (Espero que só conheça, e que não seja você o abusador nem o abusado).
  1. Sherlock Holmes. Vê sombra de “outro” em qualquer folha de papel rabiscada? Faz revista em bolsos, bolsas, malas e todo dia, toda hora, todo instante checa as mensagens do celular, tablets, pcs e ainda exige as senhas pessoais da sua cara metade. Algumas vezes ainda, porque o comportamento é recíproco ou porque o vigiado até gosta e se sente amado, mantêm-se ambos nesta loucura desvairada em nome de um arremedo de amor e cuidado.
  1. Situações profissionais enfrentadas em um local de trabalho insalubre. Não a insalubridade definidas nas NR trabalhistas, mas sim porque todos os que trabalham no local não conseguem estabelecer uma boa relação com seus colegas. Ou estão insatisfeitos com o trabalho que desenvolvem por inaptidão, ou inadequação à função exercida. Há também os que permanecem na empresa porque precisam do salário no fim do mês, todavia detestam o que fazem.
  1. Minha tribo, o que estou fazendo aqui? Há pessoas por necessidade de pertencimento em algum grupo social se aviltam em permanecer com outros os quais não têm nada comum, somente por medo de uma pretensa solidão, ou vontade de ser o que esses outros aparentam ser naquele grupo. Aquela loucura adolescente de estar com uma tribo e ser reconhecido externamente como pertencente a ela. Quem nunca?
  1. O enturmado deslocado. Permanecer em festas, espetáculos, passeatas ou torcidas organizadas, por exemplo, não se sentindo confortável naquela situação, simplesmente por não saber dizer Não, obrigado. Vou ficar em casa lendo um livro ou jogando futebol de botão com meu avô. Não é o caso de vez ou outra entrar numa fria com os amigos ou colegas. É o comportamento reiterado de se colocar nesta posição.

Há vários outros exemplos de situações fora da casinha. A decisão de permanecer nela ou não depende de autoconhecimento e confiança. Há, porém, quem goste e necessite  viver nessa loucura por mil razões.  O melhor seria cada um ter consciência do que está procurando,  o que está vivendo e o resultado de suas escolhas. Nesse caso a hashtag poderia ser outra, como #partiufelicidade!.

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Publicado no site O segredo no dia de hoje.

*Fotos acervo e internet.

O inexistente “E SE?”

Olho para trás agora e me pergunto calada: “E se eu não tivesse tentado? Como seria minha vida? O que estaria diferente?”

Tal qual uma corrente de dominó quando a primeira peça é empurrada, a vida se desenrola por conta de movimentos – pessoais, de terceiros, do universo até.  Às vezes sutilmente, outras vezes parecendo terremotos.  Um dominó derrubando o posterior até que uma brecha entre eles cesse o movimento ou encontre um contrapeso.

Quando questionamos os acontecimentos da vida com um “ E SE”, alteramos o rio que seguia seu curso naturalmente.

“E SE” não tivéssemos empurrado o primeiro dominó? Talvez eles permanecessem enfileirados firmes e fortes esperando o tempo derrubá-los. Quiçá um vento mais forte tivesse soprado e os derrubado desordenadamente. Quem sabe ainda outra pessoa pudesse ter passado por lá e sorrateiramente dado um toque só para ver o que aconteceria. Quem sabe?

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Há um perigo muito grande quando tratamos do “E SE”?. Desconhecemos o que poderia ter acontecido ou o que poderia ter sido evitado. Qualquer resposta que se dê é mero jogo de azar.  Não se pode certeza de nada.

“E SE” eu não tivesse escrito este texto? Talvez alguém mais pudesse ter tido a mesma ideia, talvez não. Talvez eu continuasse pensando no tema, ou ele morreria dentro de mim sem consequência alguma.  “E SE” eu escrever sobre o tema? Talvez ele não seja lido, ou quem sabe, lido por milhões.  Talvez alguns concordem com seu teor e poucos discordem. Como também pode ser que aconteça justamente o contrário.

O “E SE” é o símbolo da incerteza. Da precariedade do ato. Do desconhecimento dos resultados. É  fantasioso também.  Agita o imaginário de todas as formas possíveis em implicações improváveis.

A pergunta “E SE” pode ser questionada antes de se tomar uma decisão e ainda assim a resposta permanecerá como um jogo de adivinhação. Uma simples análise do que se vai fazer: “E SE” eu agir assim, quem estarei atingindo? Que efeito dominó posso provocar? Estou pronta para assumir as consequências?

O “E SE” para eventos futuros é preventivo, ainda que incerto. Uma análise prévia de possíveis cenários, evitando-se alguns resultados. “E SE” ainda assim não funcionar? Sinto informar, mas já funcionou. Assim que era para ser.

Já o “E SE” com relação ao passado, esse sim jamais deveria ser levado em consideração, pois acabado. Quando fantasiado com os possíveis cenários podem causar ainda mais ansiedade, pois não se costuma idealizar com perspectivas negativas. As pessoas costumam fantasiar criando de modo positivo o que poderiam ser e não foram. E mais, fantasiam  como não serão.

Cada vez que escutemos alguém usando ou pensarmos nós mesmos na expressão “E SE” eu tivesse feito …” precisamos lembrar que não fizemos tal coisa ou tomamos tal atitude (caso o “e se” seja por desfazer atitude anterior).  O “E SE” é mero capítulo não assistido da novela de nossa própria vida. De forma que devemos buscar o que pode ser consertado, arranjado e considerado de agora para o futuro.

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“E Se” ninguém pensar assim? Bom, talvez nada aconteça, mas pode ser também que se desencadeie um conflito mundial. Quem sabe?

 

Publicado no site http://www.osegredo.com.br  em 27 de outubro de 2016.

Fotos arquivo de O segredo.

Recebi um elogio. O que faço?

Sempre me questiono por que a pessoas ficam tão sem graça quando recebem um elogio. Desconfiança? Incredulidade? Basta alguém dizer que estamos bem vestidos para respondermos em seguida: “- Obrigada, mas esta camisa está tão velhinha!” ou “- Mas tem um buraco aqui do lado”, deixando a pessoa que elogiou desconfortável imaginando se deveria ter elogiado ou não.
Outro exemplo é se o elogio faz referência a alguma característica física da pessoa elogiada. Muito comum se dizer a uma mulher que ela é bonita e ouvir em seguida: “- Que bom, mas ainda preciso emagrecer 5 quilos.”, ou pior ainda “Obrigada, mas estou tão gorda/magra/mal arrumada/sem maquiagem”. Não falta por onde começar a se desmerecer.
E não é só com a mulher que isso ocorre. Quer deixar um homem desconfortável é fazer um elogio que não alcance a virilidade dele (já que neste caso normalmente se infla como um pavão). Entretanto, ao enaltecer o comportamento frente a uma situação boa parte deles não saberá como agir. Não agradecem nem respondem. Tampouco entendem.
Outro dia no elevador e encontrei uns vizinhos cujo filho conheci desde bebê. Hoje o menino deve estar com uns 14 anos. E está lindo. Não somos íntimos, mas mantemos excelentes relações de cordialidade. Como eu não os via há muito, para não repetir o já batido “Nossa, como você cresceu”, avisei que eu iria elogiá-lo (avisei) e tasquei um “você sempre foi muito bonito, mas está ficando um rapaz ainda mais!”, pra quê?! Parecia que ele havia sido esquecido dormindo ao sol do meio dia, de tão vermelho que ficou. E mudo. Sem coragem de me olhar de frente, baixou os olhos. Brinquei ainda com ele, dizendo que ele não precisava se encabular, pois eu não o estava ofendendo, ao contrário. Era somente uma constatação e um elogio.
Mas, voltando ao tópico. Por que tanta dificuldade em aceitar elogios?
Primeiramente pode ser pela impressão – e esta é marcante – de que a pessoa que elogia outra do nada, no fundo, no fundo, quer alguma coisa em troca do elogio. Afinal, por que alguém (ainda que amigo, familiar ou conhecido) nos elogiaria gratuitamente já que não estamos no nosso dia ‘Giselle Bundchen na capa da Vogue’?
Outro motivo pode ser pela ideia de que o elogio não foi sincero. Muita gente desconfia de elogio sem “contraprestação” e ainda, de que seja falso. Sim, existem elogios mais falsos que nota de três reais.
Mas por que não seria sincero? Porque elogiar pode ser também uma forma de manipular o elogiado atuando sobre seu ego e o deslumbre pelo elogio. Neste caso a pessoa que já teve uma experiência assim, fica com o desconfiômetro ligado.
Terceira impressão: questionar o merecimento do elogio. É muito fácil acreditar que não mereçamos estar sendo elogiados. As pessoas buscam reconhecimento, mas não acreditam fazer jus aos elogios, que são a forma direta deste reconhecimento. Estranho, porém verdadeiro.
Há um grupo de pessoas que consegue aceitar ofensas (quando leves) com maior facilidade e sensação de merecimento do que aceita elogios. Neste caso, elas estão tão acostumadas com falas negativas, gozações e com falta de reconhecimento, que se sentem mais à vontade com o insulto do que quando elogiadas.
Porém, sendo elogiado, o que fazer?
Simples: Agradeça e sorria. Abrace o elogio com o sorriso e o coração e o guarde ali silenciosamente. Nada além do agradecimento e do sorriso. Não justifique. Não se justifique. Não estrague o momento.
Pode até querer fazer um elogio recíproco, mas só o faça se for verdadeiro. Caso contrário, não o faça.
Perceba nas ações seguintes da pessoa que te elogiou o comportamento dela. Assim poderá saber se foi sincero, bem intencionado e despretensioso. E caso tenha sido, agradeça e sorria internamente uma vez mais. Percebendo que não foi, agradeça em segredo por ter tido a oportunidade de conhecer melhor as características de tal pessoa e mantenha sua intuição aguçada.
Por fim, lembre-se que quando você elogia alguém, esta pessoa pode ter igualmente estes mesmos pensamentos e sensações em relação a você. Da falta de sinceridade nas suas palavras, da contraprestação a ser paga por ter sido elogiada ou que você pode a estar tentando manipular com o elogio.
Neste caso, a sensação de desconfiança e a intuição dela trabalharão contra você. E, de nada servirá um fazer elogio em outra oportunidade, por mais verdadeiros, desinteressados e honestos que sejam tanto você quanto o elogio.

 

Publicado no site O segredo em 12 de outubro de 2016.

Reflexo de si próprio.

Levei muito tempo para entender aquele ditado que afirma que tudo o que detestamos em outras pessoas reflete o que somos e o que detestamos em nós mesmos.

Eu pensava como, por exemplo, quando afirmava que: “Não gosto de tal pessoa por que ela é grossa comigo”, que significava que eu mesma era grossa com outras pessoas e não percebia. Mas não é isso. O que detestamos ver estampados ali friamente é a nossa incapacidade de nos fazermos escutar e dar um basta na situação – seja conosco ou com terceiros.

Ouço com frequência a frase: Só tem esperto onde tem um otário. E é mais ou menos nesse sentido que se dá esse reflexo.

Alguém te faz de gato e sapato e você detesta isso? Te desrespeita ou desmerece e você mantém o relacionamento e fica falando para os outros o quanto detesta ser tratado assim. Fala que o fulano é odioso etc. Bom, você não detesta a pessoa. Você é que permite ser tratado assim.

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Nessa linha de raciocínio dá para perceber que você é que não sabe se posicionar para fazê-la parar com este comportamento. Muitas vezes por acreditar que ao dizer não seus amigos e colegas deixarão gostar de você ou vão desconsiderar a sua amizade. Ou que ao se posicionar contra este comportamento deixará de se relacionar com o fulano.

E não é por ai.

Amizade é importante, mas respeito próprio é ainda mais. E amigo verdadeiro compreende um não como resposta. Se o amigo é ‘folgado pra cima de você’, dê um ‘catoco’ nele. Fale diretamente que não aceita mais aquele comportamento, que está se sentido usado e que não tolerará outra vez esse tipo de atitude. Então, terá certeza se ele muda sua conduta ou não. Se te respeita ou não. E, se não mudar e você continuar aceitando, bom, só tem esperto onde tem um otário.

O mesmo se dá nas relações familiares e amorosas. As pessoas só vão até onde as permitimos ir. Se você reparar é certo que conheça pessoas com as quais não se sinta a vontade nem de pedir um favor que seja, porque elas nunca te deram abertura para tanto. Fazer piada então, nem pensar. É mais ou menos este o pensamento. Não faz brincadeiras com ela porque ela não te permite.

Muitas vezes as pessoas têm tanto medo de magoar os outros – amigos, parentes, colegas de trabalho, relacionamentos amorosos – que não se dão conta de o quanto está se machucando internamente, se amargurando. E a garganta sofre, a voz some. A tristeza se apodera e o que era para ser uma boa história vira um conto de terror.

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Lembre-se, por outro lado, que vivemos em uma estrada de mão dupla. O que você exige dos outros, é o mesmo que esperam de você. Ou seja,  não reclame de alguém folgado se você é folgado para com os outros também. Pode ser que eles não estejam sabendo te dar o mesmo ‘catoco’ e te dizer não e você esteja se aproveitando disso. É a brincadeira do não querer explorar, mas já explorando.

A vantagem é que com o tempo aprendemos. Aprendemos a nos respeitar mais e a respeitar igualmente os que convivem conosco. A dizer os nãos quando realmente percebemos que alguém pretende ultrapassar nossos limites. Aprendemos a exigir menos das pessoas  e a trabalhar melhor os reflexos estampados do que realmente somos.

*Publicado no site osegredo.com.br  dia 01/10/2016.