Boca fechada não entra mosca

Já ouviu esta expressão: Boca fechada não entra mosca?

Minha mãe costumava repetir este ditado quando falávamos algo inconveniente ou não parávamos de falar.

O ditado não está necessariamente ligado a falar mal ou fazer fofoca. Muitas vezes simplesmente ao ato de falar impensadamente e, com isso, criar embaraço pessoal ou em relação ao grupo onde se está.

Muitos estudos tentam entender o porquê de muitas pessoas não conseguirem ficar sem expressar opinião ainda que não entendam nada do assunto. Ao contrário da atriz convidada a participar de um programa de televisão que quando perguntada a respeito dos filmes apresentados respondia não poder opinar,  em relação a não falar besteira só se pode entender que ela estava certíssima. Ela própria reconhecia não ter conhecimento suficiente para se expor no debate e pronto. Simples e direta.

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Por outro lado, um bom número de indivíduos costuma dar opinião em matérias às quais jamais ouviram falar ou leram a respeito, num simples exercício de pertencimento e de prestigiar o próprio ego. E com isso a possibilidade de entrar mosca cresce em proporção geométrica.

Falar sem pensar, opinar sem conhecer um mínimo que seja sobre o assunto e fofocar fazem parte de um pacote de descontrole mental. Demonstram insegurança e necessidade de ser ouvido – ainda que o resultado possa ser desvantajoso a si mesmo. E com o risco de se encaixar ainda em um segundo ditado: Quem fala o que quer ouve o que não quer!

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Pessoalmente gosto de falar. Lecionei muito tempo. Já palestrei em vários eventos. Puxo conversa em fila de supermercado. Por conta da profissão me expus e fui exposta a situações onde o cuidado com a palavra expressada teve que ser maior do que o assunto tratado propriamente dito. Mas faço parte do grupo que acredita e tenta arduamente trabalhar o silêncio oral e mental. A teoria de que se não se pode oferecer uma palavra positiva aos outros é melhor ficar calado.

E, percebo ainda, que na maioria das vezes quando me falta uma palavra positiva, um olhar carinhoso, um abraço, um sorriso ou simplesmente sentar juntos de mãos dadas expressam melhor o que não sei como falar.

Texto publicado no site Osegredo em 21 de setembro de 2016.

EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSCA!

Alma Velha

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Hoje eu estou com a alma velha.
Não reflete quem eu sou, mas o que sinto agora.
E a alma está velha.
Alquebrada e cansada, pesarosa como se o tempo me tivesse machucado.
Não o fez, mas sinto a alma velha.
Ranzinza e medrosa, tão diferente do que sou.
Sem objetivo, sem meta, apenas uma velha alma.
Onde os sonhos não mais alcançam.
Alma de sonhos esgotados.

Hoje eu estou com a alma velha,
Não velha de idade, mas velha no fundo da alma.
Aquela velheira de fim de tarde, do crochê das antigas avós.
Aquela velheira da cadeira de balanço,
das meias elásticas grossas apertando os pés.
Aquela velheira do sentar na cama e receber a sopa nos lábios sem cor.

Hoje eu estou com a alma velha.
E quando me olho no espelho  pareço contar as rugas,
Contar as cicatrizes, os cabelos brancos.
Contar as frestas abertas das feridas não curadas,
Contar os capítulos da vida ainda não terminados.

E, ainda que hoje eu esteja com a alma velha, basta abrir a janela e perceber que minha alma velha apenas em mim incide.
Pela janela vejo um jovem correndo pela calçada para manter a forma.
Uma senhora em destino desconhecido. Um casal abraçado arrulhando juras de amor.
Meu pensamento se desvanece na realidade. Inerme e soturno.
Tenho apenas poucos anos, mas hoje estou com a alma velha.

Mudando como as estações.

Se permita mudar como as estações.

Um dos fenômenos mais aclamados da natureza são as estações climáticas – Primavera, Verão, Outono e Inverno. Hemisfério norte e sul em datas trocadas, mas os mesmos fenômenos. Em algumas regiões do globo há a prevalência natural de uma estação sobre as outras. Algumas vezes dentro da própria estação suas manifestações ocorrem com mais rigor. Porém, em todas as regiões, há o tempo de florir, o de brilhar, o de despetalar e o de se recolher.

Trazemos em nós as estações internas. Reflexos do que somos, de como crescemos, amadurecemos e nos permitimos para o mundo.

Alguns carregam o Inverno como natureza – introspectos e reservados. Reserva de si mesmos em relação aos outros ou reserva de suas energias para um momento posterior. Há quem seja  Verão em seu apogeu. Chegam chegando, ofuscando, aquecendo. Chegam com brilho e determinação.

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Existem os  Primavera – que florescem de um dia para o outro, que embelezam os ambientes, e buscam harmonia entre as cores e sentidos. E muitos são Outono, elaborando o sentido da preservação e do cuidado com o próprio interior.

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Há quem consiga passar pelas quatro estações em um único dia. De furacão a calmaria. Da preservação energética ao florescer. Por outro lado, há quem aparente ser uma única estação o tempo todo, como característica de sua personalidade.

Entretanto, por mais que nos vejamos especificamente uma das estações, não devemos nos manter no sombrio do inverno e nem no ápice do verão. O inverno carece da lareira para aquecer o corpo e a alma. Precisa do chocolate quente, do chá e da sopa energizar. E, ao contrário, o verão precisa da brisa para amornar a pele. Necessita do vento para emaranhar os cabelos, de sorvete, de melancia e de água fresca acalmando o corpo.

Precisamos do outono para planejar, preparar, mas não devemos ser apenas Outono – o que foi planejado há que ser executado. Ao mesmo passo de que o que floresceu – enquanto Primavera – precisa ser reciclado, revisto, até para florescer outra vez ainda mais belo.

Precisamos estar atentos à nossa natureza, porém, ainda mais, é necessário também nos permitirmos  que o fluxo da vida adentre em nossos corações e espíritos em seu próprio ritmo. Nesse caso passaremos pelas estações naturalmente, sabendo que há o tempo de nos organizarmos para florescer. E, que há também o tempo de nos recolhermos até para brilharmos mais.

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Imagens – internet

Seja o sol de alguém – antes de tudo o seu

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O ser humano há muito busca reconhecimento. Aquele sentimento de que fazemos sentido e somos importantes para alguém, para a comunidade, para a humanidade.

Entretanto, o que se percebe é que desejamos que este reconhecimento venha de fora para dentro, ou seja, que alguém hasteie bandeiras em nossa homenagem. Que diga o quanto somos imprescindíveis em sua vida, que não podemos faltar  ou nos afastar um minuto que seja. Alguém que repita incessantemente que somos o sol que ilumina os seus dias.

Mas (um segundo ‘entretanto’), sinto lhe dizer: tudo isso é seu ego querendo idolatria.

Nem sempre o que desejamos é o mais importante – nem para nós mesmo, muito menos para os outros. E mais, nem sempre o que  ambicionamos é o reflexo de como agimos. Não somos bondosos, caridosos e queremos ser reconhecidos pelo resto dos nossos dias por um único gesto de altruísmo.

Não somos fáceis de lidar, mais difíceis ainda de conviver, e ansiamos que todos adorem estar em nossa companhia.

Esperamos ouvir muitos eu te amo, ao mesmo tempo em que acreditamos que as pessoas que convivem conosco têm certeza que as amamos e que por isso não é necessário que digamos o mesmo a elas.

Queremos, desejamos, temos certeza que merecemos.

O ser humano deseja ser o sol de alguém. Porém, para que isso aconteça, precisamos primeiramente ser o nosso próprio sol.

Precisamos brilhar internamente para nós mesmos. Ter um sorriso de amor e cumplicidade para as nossas próprias atitudes. Perdoar-nos por nossos próprios erros. Perdoar profundamente os que estão à nossa volta e que erraram para conosco.

Ser o nosso próprio sol significa que estaremos completos e reconhecidos pela pessoa que mais deve importar – nós mesmos. Cada um de nós individualmente, em relação a si próprio. Sem vaidade, sem falsos agradecimentos, sem homenagens por aquilo não tenhamos feito por merecer verdadeiramente.

foto -Elizaveta Porodina ou Alice Litwin como é conhecida no deviant ART

E, com o nosso sol brilhando dentro de quem mais importa em nossa vida, começaremos a brilhar para fora. Algumas vezes timidamente, como depois de dias de chuva, quando o sol aparece sem jeito por entre as nuvens. E então, num crescente de luminosidade amplia a luz, a presença, mesmo sem percebermos.

No final, quando nos dermos conta, estaremos fulgurantes, plenos como sol de verão ao meio dia, brilhando sem distinção sobre todos. E, as pessoas em volta, continuarão o seus dias, suas rotinas. Algumas buscarão o filtro solar. Outras reclamarão porque têm que trabalhar em um dia lindo, enquanto outras deitadas no parque aproveitarão o momento. Mas, em pensamento, todos saberão da sua existência e em prece ou em pensamento lembrarão e  agradecerão a sua existência. Sem faixas, sem hinos, sem bandeiras, sem eu te amo, mas completa e inexplicavelmente com toda força do coração.

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Fotos –

1ª – National Geographic

2ª – Elizaveta Porodina/Alice Litwin, como é conhecida no deviantART

3ª – sem autor – internet

Síndrome de Hardy

Quase certo que conheçamos alguém quem passe o dia todo reclamando da vida. Chamo quem se comporta assim de portador  da  Síndrome de Hardy (personagem famoso de um desenho animado dos anos 70/80). Para um Hardy  nada foi bom, nada está bom e idealiza um prognóstico sombrio  para o futuro.

Hardy

Triste isso. A pessoa não tem noção de que o Universo responde justo o que se emite a ele. E  a consequência parece ser que o Hardy  tem razão quando diz que nada dá certo para ele.

Pode ser um dia de céu azul, churrasco na piscina e pássaros cantando. Hardy só conseguirá dizer que está quente/seco/úmido  demais;  que a carne está dura/sem sal/salgada além do necessário  e, no fim do dia,  para carimbar a alegria, é bem capaz de um pássaro fazer um cocozinho direto na cabeça dele.

Se for ao shopping reclamará que está cheio ou vazio para aquele dia da semana. Se ficar em casa, não conseguirá  aproveitar seu espaço e nem seu momento. Resmungará  por conta de bagunça/esmero; do  barulho/silêncio;  de que tem ou não tem algo para fazer.

O Hardy não consegue conviver bem sozinho, afinal para quem reclamará? O bom para ele é agourar a vida dos amigos, familiares e até mesmo da pessoa com quem mantém um relacionamento amoroso.

corvo - pixabay

Ele se sente como vítima de tudo  e de todos, mas jamais de seus próprios hábitos e pensamentos.

Não se pode dizer que uma pessoa otimista não sofra  infortúnios. Mortes, doenças, violência, demissões, péssimos relacionamentos acontecem a todo instante, indistintamente, não importando a bondade ou maldade das pessoas no mundo inteiro.  O que muda é como cada um de nós responde  aos acontecimentos.

A pessoa tipo Hardy toma os acontecimentos para si como um fator de castigo, de ‘eu sabia que não ia dar certo’ e pior ainda, de ‘eu avisei’. O otimista,  por sua vez, vai sofrer, xingar, culpar-se ou culpar os outros, mas aceitará o caminhar da vida muito mais facilmente.  O processo  mental  de aceitação do otimista levará menos tempo, embora muitas vezes continue sofrendo ou incorformado. O que difere é que este não viverá dentro de uma novela mexicana, sofrendo todos os capítulos, vertendo lágrimas a cada palavra pronunciada.

O Hardy cansa quem está à sua volta. Suga a energia dos que convivem ao seu redor. E, mais triste ainda, gasta sua própria energia vital negativamente. Como não consegue agregar nada de positivo para os que convivem com ele, não vislumbra o tempo perdido e o desgaste em sua própria vida.

O Hardy do desenho animado estava sempre na companhia do Lippy, o leão mais otimista da face da Terra, fazendo o contraponto ao seu desânimo e muxoxo. Porém,  na vida real os Hardys  não costumam  ter amigos que os tolerem, justamente por serem um  poço de pessimismo.  Assim, como bom pessimista,  não entenderá que é seu próprio comportamento que os mantém afastado da humanidade e, em um círculo vicioso, culpará os outros.  Oh céus! Oh dia! Oh solidão! Oh azar!

solidão - pixabay

Desenho animado no youtube:  https://www.youtube.com/watch?v=ps13Ezjp2bc

Imagem – internet

 

A perfeição do imperfeito

Outro dia assistindo a um programa de culinária o apresentador buscou uma travessa para servir o prato feito. A travessa de louça azul estava lascada em dois cantos. Que coisa impensável para apresentar na televisão, não? Não mesmo.

Assim que ele escolheu a travessa no guarda louça, em um comentário simples ele disse que amava peças que tinham história e que aquela, em especial, já havia participado de tantas comemorações, almoços em família e aparecido nos seus programas em outros episódios que ela (travessa) já se sentia estrela do programa.

Achei aquilo incrível e não me pareceu em nada que fosse uma desculpa televisiva, até porque era possível parar a gravação e editar a cena com uma travessa nova, sem lascados, o que não aconteceu.

Assim que terminou o programa fiquei pensando em uma história que já tinha lido sobre  louças japonesas e o   Kintsugi ou kintsukuroi.  Essas palavras tão diferentes para nós nada mais são que a arte secular japonesa de restauração de peças lascadas ou quebradas utilizando  um verniz especial  (laca) polvilhado com ouro em pó, prata ou platina. E o efeito, lindo.

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No início do século XV a mistura era usada em peças de porcelana e louça. Atualmente se utiliza a técnica também artigos de couro e tecidos.  E, pensei eu, poderia ser utilizada em gente.

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Mas o que tem isso a ver com gente, conosco? E eu respondo: muita coisa. A sabedoria oriental transforma as peças lascadas ou quebradas em algo único, impossível de serem reproduzidas, e ai que entra a analogia que quero apresentar:  – Nós, apesar dos  machucados, ferimentos ou sensação de quebrados, podemos sim nos recuperar e nos tornarmos mais seguros e fortes. O que nos falta é encontrar a nossa “laca e o pó de ouro” para a mistura.

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Penso que para algumas pessoas esta cola seria feita de lágrimas e fé – qualquer que seja ela. Para outros de suor e determinação? Para outros ainda, risadas e um deixa pra lá verdadeiro, ou então,  perdão e amor – próprio e aos demais, por que não? Entretanto será necessário ter consciência de que a cola precisa de tempo para secar e o verniz para brilhar, culminado assim na recuperação do físico e da alma.

Como resultado teremos cada um de nós convertidos em peças únicas, mais preciosas e fortes que o formato anterior. E cada vinco da laca representará a  cicatriz de uma história indivisível, única e surpreendente .

Fotos – internet.

Publicado no site https://osegredo.com.br/2016/08/perfeicao-do-imperfeito/    dia 12 de agosto de 2016.

Lembranças de Dia das Mães

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Estava lendo todas as homenagens às mães postadas e pensei, bom seria se todos os dias fossem assim – só de homenagens, mas não.
A gente briga muito com as mães, faz parte do crescimento. Há muito venho brigando com meus filhos, e, certamente, fez parte do amadurecimento deles.
Me lembrei ainda da teoria que eu tinha quando era jovem e sai de casa, a de que “saudade a gente mata no aeroporto”. No caminho para a então casa dos pais, a realidade tomava conta e tudo voltava a ser a encheção que era antes – só problemas, falar dos outros familiares, contar as desgraças da família…
Sempre aprendemos pelo exemplo. Uns exemplos são bons e, os filhos as repetem porque querem ser como foram seus pais. Outros, porque almejam ser completamente diferente exemplo que tiveram. Não adianta, não fugimos disso. Mas, o norte, continua a ser o exemplo. Não as palavras, as horas de faça isso, seja aquilo.
Um bom dia para o porteiro, falado doce ou brutalmente será o exemplo. Pedir a refeição em um restaurante – educada ou grosseiramente, se tornará o comportamento constante. Como os pais se tratam em público e, principalmente, em particular, a bússola de ensinamento dos filhos.
Não posso julgar que as fotos postadas de Eu amo minha mãe sejam falsas. Algumas são incoerentes, mas não falsas.
Já perdi minhas mães há tempos. Uma mudou de plano, a outra mudou de mente. Não, não eram um casal homoafetivo. Eu tive duas mães porque fui criada por duas irmãs, ao mesmo tempo. Minha mãe natural e minha tia, que me adotou no coração.
Brigava muito com ambas. Tentava me impor, me fazer ouvir .
Era ouvida ao mesmo tempo que não davam a mínima para minhas colocações.
Era amada ao mesmo tempo que me davam broncas por coisas impensáveis – cabelo, roupa, vocabulário (e olha que hoje falo mais palavrão do que falava à época).
Era querida ao mesmo tempo que me cobravam boas notas, bom comportamento.
E, vim embora. Dois mil quilômetros de distância e um milhão de sonhos. E, de repente, não mais que de repente, me vi repetindo os comportamentos que eu abominava. Os conselhos que eu detestava. os exemplos que jurei que não repetiria.
E pior, quando acontecia alguma coisa e eu não tinha rumo, ligava para as duas, que me davam sugestões completamente opostas e desta polaridade eu encontrava o equilíbrio.
Hoje analiso e percebo que sempre precisei dos opostos para ser quem sou. Sou reflexo das duas e ao mesmo tempo sou eu mesma.
Para meus filhos? Tentei sempre lembrar que Saudade a gente mata no aeroporto.

 

 

Apegos e Desapegos

 

Soul Flying - by Mariya Andriichuk

 

2015 foi o ano do desapego.
No começo do ano me desapeguei de minhas pálpebras cansadas.
Não sei o que tanto pesava nelas, mas o olhar era de alguém muito mais velha,  fatigada, com mais tristeza.
Olhos inchados, roxos, mas agora sem marcas.
Olhos que sorriem leves e dispostos.

Em junho me desapeguei das muitas palavras não faladas,
De gritos estancados na garganta.
Desapeguei de tentar manter a postura ereta para suportar o peso do mundo.
Não sei se desapeguei totalmente, só saberei daqui a mais algum tempo.
Nem sabia antes que tinha tanto não falado, tanta coisa travando meus movimentos e como ver o mundo.

Há poucos dias me desapeguei de rancores acumulados, empedrados dentro de mim.
Azedumes de sentimentos jazem agora num vidro esperando o que decido fazer deles.
Enterro? Libero numa cachoeira agregando novas pedras em seu fundo? Faço em artesanato  uma pulseira para olhar e buscar lembrar do que não percebo?

2015 foi o ano do apego.
Me apeguei às boas vibrações em meu nome.
Me apeguei aos amigos presentes.
Me apeguei a pequenez dos momentos
E ao tempo eterno de um segundo de carinho.

Me apeguei a uma coragem que nem sabia que tinha e continuo incerta se a tenho.
Às decisões rápidas e definitivas.
Me apeguei à ciência, ao momento finito e ao infinito.

Apegos e desapegos não são fáceis de serem colocados na balança dos dias,
São imprescindíveis.
Contínuo aprendizado.
Mente inquieta.

Neste desapego não quero criar expectativas para 2016.
Quero ser surpreendida, desafiada, amada.
Quero acordar esperançada (não esperançosa)
Quero desenhar ilimitado,
Aprender continuamente.
Quero cantar mais afinada,
Dançar embriagada de mim mesma.

E quando estiver em mim, completamente centrada,
Poder olhar para trás e saber que, embora não entenda o porquê, tudo está como deveria ter sido.
Sem haver olhares cansados, palavras não ditas e rancores guardados.
Restando apenas liberdade e serenidade.

*imagem – Soul Flying – Mariya Andriichuk

Ensimesmada

flor e gota

Centrada e de olhos fechados, tentava esquadrinhar dentro de si todo o baú de ferramentas para se vestir para a batalha.
Inicialmente buscava a aceitação. Os questionamentos “E se”, “Por que comigo”, “ah, eu não merecia” não faziam parte de seu vocabulário. Acreditava que pelo simples fato de estar viva e a vida não ser um sonho lindo da Disney, a probabilidade de uma experiência que a desafiasse era ampla, até mais do que a possibilidade de não a ter. Uma referência à lei de Murphy: pontual e específica.
Segundo, buscou focar a atenção. Atenção a si mesma e àqueles que a rodeavam. Passou por momentos de cansaço infindo que tomou conta de tudo. De apreensão gigantesca corroendo o racional, de uma tentativa de lágrima forçada, como se compaixão fosse o que lhe aconteceria mais naturalmente. Mas não era.
Em seguida, ainda em postura de lótus, abriu o cadeado de sua gaveta mental de atitudes.
Saíram de dentro desta caixa lembranças de palavras que proferiu para ajudar outras pessoas. Palavras acalentadoras e verdadeiras. Se em um momento estas palavras tiveram importância para serem ditas, qual o motivo agora para não serem ouvidas?
Mais um momento e ficaram livres a força interior, a luz, a vivacidade e a vontade de superação. Passearam no ar trechos de mantras, orações e silêncios interiores.
Não, não haveria mais luto e sim luta. Não haveria negociação. Ela queria pé na estrada, decisão. Empoderar-se para ganhar objetivo, sem escoras ou amparo simulado. Ela era luz e esperança. Esperança numa força maior e de energia que suplantasse qualquer negatividade.
E ela permaneceu ali. Pernas dobradas, respiração lenta, coração compassado. Assim permaneceu e o tempo passou. Acabou por não dar sentido à dor que em realidade não existia; à dúvida que não seria esclarecida e por fim ela se desvencilhou de si mesma.
Não precisava retomar de seu momento de introspecção. Carecia apenas abrir os olhos e visualizar ao seu redor. O mundo continuava com seus próprios horrores e maravilhas. Escândalos se misturando a novas descobertas científicas. Acidentes contemporizando à comiseração. A batalha era dela e de ninguém mais.
E desta forma, calmamente ela descruzou as pernas. Abriu os braços, respirou fundo e trazendo as mãos ao peito fez um gesto de agradecimento. Era só o que faltava para a aceitação total do seu momento. Um “e que assim seja porque estou pronta”.
Virou para trás e percebeu que eu estava ali esperando por ela. E me lançando um grande sorriso me pediu – me leva tomar um sorvete? E juntas soubemos que a vida continuava em sua desordenada rotina. Sempre igual e a todo momento repleta de novos desafios e surpresas.

Indo para o interior

INTERIOR

Dias em que a agitação toma conta da cidade,
trânsito louco,
pessoas correndo,
insanidade.

Busco um lugar novo,
sem medo, sem agitação.

Um lugar para respirar melhor,
sentar calada, olhar ao redor.

Um lugar para aquietar a alma,
sorrir para a vida,
abraçar a quietude.

Busco uma viagem,
trajeto longo, cheio de curvas.
Deslumbrantes paisagens,
um colorido inóspito,
grandes descobertas.

Sigo para o interior,
cada vez mais calma,
cada vez mais lenta.

Percebo meu entorno,
descortino o medo.

Sigo ainda mais para o interior,
cada vez mais fundo,
mais firme,
para dentro de mim.

Foto – Tomasz Alen Kopera