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DESPEDIDA EM VIDA

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Despedidas nem sempre são fáceis. Despedida por morte, além de difícil, extremamente dolorosa.  Mortes súbitas permanecem inaceitáveis por longos anos nos corações de familiares e amigos. Inexplicáveis, ininteligíveis. A dor da perda inesperada de entes queridos, além de dilacerante, pode ser um dos maiores traumas de quem a experimenta.

Hoje não vou escrever sobre este tipo de despedida. Vou tentar colocar em palavras, a dor e a mistura de sentimentos quando nos despedimos de pessoas queridas acamadas; dos desenganados;  dos que estão chegando à sua hora – por doença ou idade –  e somente aguardam o chamado superior, se é que há.

A mistura de sentimentos e sensação de culpa que permeiam esta situação em  quem  se despede leva a embates mentais e espirituais. Como dizer este “adeus” e não dar a impressão que desejamos a morte da pessoa?

Francamente, a morte  é o que desejamos do fundo do coração. Chegamos a este desejo não por que seja mais fácil, ao contrário. Desejar que um ente querido parta (para não dizer morra), chega a ser cruel, conosco e para com o doente. Todavia, verdade seja dita, simplesmente queremos que a pessoa em questão não sofra mais e  se liberte deste plano o mais breve. É impossível enxergar algum propósito  em uma  vida dependente de tubos, respiradores, falsa alimentação, medicamentos extremos. A situação onde, se a legislação permitisse, as máquinas seriam desligadas e se aguardaria o suspiro final.

Sem entrar em questões religiosas, uma vez que cada leitor tem sua fé, a complexidade de pensamentos e sentimentos faz com que tentemos racionalizar o mais possível a motivação da despedida. Como se fosse uma desculpa mais bem explicada como resposta a quem perguntar pelo que estamos passando. Eu não trabalhei com estatísticas, somente com pessoas que passaram ou passam pela mesma situação.

Se por um lado rezamos pela melhora da pessoa, ao final complementamos a oração com um pedido de que: “siga seu caminho em paz”, o que é totalmente contraditório. Decidamos: ou a pessoa melhora ou descansa eternamente! A única diferença é que, abraçando as duas possibilidades, ficamos com a consciência limpa e coração leve. Energeticamente, entretanto,  é confuso como um bate e assopra.

É o contraponto da fé no milagre da retomada de vida pelo acamado. Como se não pudéssemos entender o ritmo natural das coisas  – nascimento/crescimento/morte. Como se a morte  não fizesse parte da vida.

Racionalmente não vejo como erro o desejar-se  a partida de alguém cuja medicina já gastou todos os recursos e a mantém viva  por conta de um fio na tomada. Esse difere de um anseio assassino. É, a meu ver, agradecimento e reconhecimento. Desapego e liberação. Emocionalmente, entretanto, gostaria de ter este entendimento.

Nas situações cotidianas, um ‘desejo assassino’ independe do fato de a vítima estar doente, desenganado, acamado ou velho, ao contrário. É totalmente irrelevante. São situações opostas. Minha dor e reflexão é sobre os que estão vivos sem estar vivendo; aqueles que já morreram fisicamente e estão esperando algo maior espiritualmente para deixarem este mundo.

É egoísmo pensar assim? Dá a parecer que se está ”adiantando herança” ou “querendo se livrar de um problema”? Ou, ao oposto, é gostar tanto da pessoa e não aceitar que ela permaneça naquele estado vegetativo? Material infinito para tratados sobre questões éticas, religiosas e espirituais, sem mencionar culturais também.

Não fomos educados para aceitar a morte. Questioná-la então, fora de propósito. Mas sendo bem clichê, é a única certeza que temos da vida.

Viver de luto por uma pessoa querida semiviva (ou semi morta), é dilacerante. Ao mesmo passo, reconfortante. Temos tempo de agradecermos, de acarinharmos, de reconhecermos os erros – os nossos, o da relação, os da pessoa  – e assim ressignificá-los e perdoá-los. De nos perdoarmos também.  Apesar de tudo dói menos que o luto pela  morte súbita, que não nos permite esta reflexão, só a perplexidade e o desespero. Ao final temos o tempo, que quando não cura todas as feridas, as amaina e as torna menos dolorosas.

*Publicado em 07/12/2017 no site osegredo.com.br – Despedida em vida

 

 

 

 

 

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Mudando como as estações.

Se permita mudar como as estações.

Um dos fenômenos mais aclamados da natureza são as estações climáticas – Primavera, Verão, Outono e Inverno. Hemisfério norte e sul em datas trocadas, mas os mesmos fenômenos. Em algumas regiões do globo há a prevalência natural de uma estação sobre as outras. Algumas vezes dentro da própria estação suas manifestações ocorrem com mais rigor. Porém, em todas as regiões, há o tempo de florir, o de brilhar, o de despetalar e o de se recolher.

Trazemos em nós as estações internas. Reflexos do que somos, de como crescemos, amadurecemos e nos permitimos para o mundo.

Alguns carregam o Inverno como natureza – introspectos e reservados. Reserva de si mesmos em relação aos outros ou reserva de suas energias para um momento posterior. Há quem seja  Verão em seu apogeu. Chegam chegando, ofuscando, aquecendo. Chegam com brilho e determinação.

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Existem os  Primavera – que florescem de um dia para o outro, que embelezam os ambientes, e buscam harmonia entre as cores e sentidos. E muitos são Outono, elaborando o sentido da preservação e do cuidado com o próprio interior.

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Há quem consiga passar pelas quatro estações em um único dia. De furacão a calmaria. Da preservação energética ao florescer. Por outro lado, há quem aparente ser uma única estação o tempo todo, como característica de sua personalidade.

Entretanto, por mais que nos vejamos especificamente uma das estações, não devemos nos manter no sombrio do inverno e nem no ápice do verão. O inverno carece da lareira para aquecer o corpo e a alma. Precisa do chocolate quente, do chá e da sopa energizar. E, ao contrário, o verão precisa da brisa para amornar a pele. Necessita do vento para emaranhar os cabelos, de sorvete, de melancia e de água fresca acalmando o corpo.

Precisamos do outono para planejar, preparar, mas não devemos ser apenas Outono – o que foi planejado há que ser executado. Ao mesmo passo de que o que floresceu – enquanto Primavera – precisa ser reciclado, revisto, até para florescer outra vez ainda mais belo.

Precisamos estar atentos à nossa natureza, porém, ainda mais, é necessário também nos permitirmos  que o fluxo da vida adentre em nossos corações e espíritos em seu próprio ritmo. Nesse caso passaremos pelas estações naturalmente, sabendo que há o tempo de nos organizarmos para florescer. E, que há também o tempo de nos recolhermos até para brilharmos mais.

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Imagens – internet