Camisetas de Corrida na Gaveta

 “Uhul, está chegando mais uma”, diz a camiseta da Corrida de Reis, de Cuiabá, avisando as centenas de outras guardadas numa gaveta da cômoda, especialmente para as de aventuras de um senhor corredor.

Diz senhor corredor nos dois sentidos: de um grande corredor que, embora amador, se dedica às corridas, como pela idade e cabelos brancos. Categoria sênior, há alguns anos paga ingressos com desconto de 50%.

“Nossa, estava sentindo falta de novas amizades” se manifesta, lá do fundo, a da Meia Maratona de Porto Alegre. “A última tinha sido de Aracaju, mas ela ainda está tímida aqui na gaveta, sem entender nossas conversas e variedades de camiseta, não é mesmo, Caju?” grita em seguida, enchendo a paciência da de Aracaju, a primeira prova disputada em meio à pandemia.

A camiseta da corrida de São Silvestre, que acontece todo ano no dia 31 de dezembro, chega se achando, querendo enturmar. “Oi, gente, vocês acreditam que ele correu 15 quilômetros em tempo menor do que o planejado, nessa corrida única!” diz em tom de grandeza. Do fundo de outra pilha, uma camiseta branca, manga longa, se apresenta em tom de gozação “Hola señor, ¿que tal? Yo soy la de San Silvestre Valencana, la prueba de San Silvestre que se celebra todos los años en Nochevieja, en Madrid. Se escribe Madrid com D! El compitió alli con su hija hace cuatro años … ¿Ella lo acompañó en São Paulo, por supuesto?”. Pronto, São Silvestre 2021 tinha sido colocada no seu lugar, pensaram as demais.

“Ah, São Silvestre, só para você saber, o atleta é multifacetado, ele corre meia maratonas, provas em trilhas, faz triátlon, você vai fazer amizade aqui com várias tribos esportivas”, explica a Urubici, camiseta de prova uphill que acontece em Santa Catarina no inverno. “Como estava a temperatura em São Paulo este ano. Chovendo?” tentando reanimar o recém-chegado.

Silvestre, como lhe denominaram em seguida na gaveta, depois do toco que levou de Valencana, ficou um tanto desanimado para conversar, mas não quis parecer mais grosso e respondeu, “tava fresco, só choveu depois da prova, mas pelo que ouvi falar, ele gostou da temperatura, tanto que baixou o tempo previsto”. Em seguida, se aquietou no seu novo espaço.

Logo depois, como algumas ficaram agitadas na gaveta com a chegada dessa nova companhia, e notando o toco que Valencana havia dado em Silvestre, as camisetas da Equipe Toco (grupo de amigos de Cuiabá da qual o atleta faz parte e que disputam provas no mundo inteiro) se meteram na conversa e começaram a falar.

“Vamos parar com essa má recepção para com o Silvestre”! — Disse uma.

“Ele acabou de chegar de São Paulo, passou pela máquina de lavar, deve estar estranhando nosso clima quente”.  ­— Falou outra. E a mais nova da equipe, ainda perturbando a pobre peça recém chegada: “Só lembrando que muitas das provas ele disputa conosco, e veste vocês depois da chegada, só para não voltar para casa ou hotel todo suado. Nós somos as ‘oficiais”, disse rindo alto.

Corrida de Reis 2020 intervém:

­­­— Oh, Toco, sem querer caçar mais discussão, deixa eu esclarecer uma coisa: você é da equipe, e nós aqui somos da prova. Ele corre há mais de 25 anos nossa prova. Ainda que esteja fora na virada do ano, sempre volta para participar, mesmo sendo somente 10km. É pela nossa tradição.

E continua o pensamento: “Ano passado não teve por conta da pandemia, e por isso nós aqui dentro fortalecemos nossa amizade nesse período, não chegou camiseta nova, mas ele não deixou de treinar e nos vestir, todas, nos treinos diários.”

Algumas camisetas aplaudiram, outras fingiram continuar descansando, as mais embaixo das pilhas tiveram a conversa abafada desde o começo, não prestavam muita atenção, acostumadas que estavam com o salseiro.

Entretanto, muitas adoravam criar caso e movimentar a estadia na gaveta e, para encerrar a disputa, a camiseta da Meia Maratona do Douro, Portugal, retoma o assunto: “Oras pois, estou a rir de vocês nessa querela sem tamanho. Como se não soubessem que a mais importante de todas aqui sou eu. Sou a única prova que ele correu com os filhos. Estávamos a viajar juntos para comemorar o aniversário da rapariga e correr pelos vinhedos de Peso da Régua”.

Douro era modesta, sempre quieta, como a própria região de onde tinha vindo. Não se metia em conversas alheias, mas não podia deixar esta oportunidade passar em branco.

O alvoroço continuava, as camisetas nacionais, das capitais por onde havia participado de alguma prova, aplaudiram a intervenção. Rio de Janeiro dialogava apenas com Curitiba, afirmando que o atleta tinha adorado correr à beira-mar, ver o Corcovado, a mata… Curitiba se defendeu contrapondo que ele preferiu ter corrido em sua cidade natal, que, embora morasse em Cuiabá, ela — Curitiba — era a cidade do coração. Floripa não deixou por menos, comentou que a primeira prova em equipe tinha sido a Volta à Ilha, uma aventura na areia, e era especial para ele também.

Paris falou baixinho para Vegas: “Ulalá, le tiroir devient frénétique!”, ao que essa respondeu: “Larga de ser metida, Paris! Fala em português, porque já deu tempo de você aprender a língua e ninguém gosta quando você parle en français”.  E mais secamente completou: “Nem precisa traduzir o que falou. Entendi alguma coisa como estarmos mais agitados, frenéticos. Dá um tempo!” e cortou a conversa.

Corrida de Reis continuava acalmando Silvestre, distraindo sua atenção das conversas sobre o mesmo assunto, e em pouco tempo a gaveta voltou ao seu normal.

No dia seguinte, quando se aprontava para correr, o senhor abre a cômoda e apela para a esposa:

— Moreee, você viu a camiseta de Berlim, aquela verde? Não a vejo aqui.

— Gente, com mais de duzentas camisetas nesse gavetão e você quer uma que não está fácil? Pega qualquer outra…” Responde de longe.

— É que o livro que estou lendo se passa de Berlim, e como foi a prova mais linda que já corri, queria treinar hoje com ela.

Sem querer e dito pelo próprio atleta, todas as demais sentiram inveja da preferida.

Texto escrito em Janeiro de 2022.

Imagem:  RUN 4 FFWPU no Pexels

A calçola de Algodão da Poderosa

Quem olha para essa mulher-menina poderosa, recebendo prêmios internacionais, amiga de todos os famosos das artes, música e moda mundial, dona de seu corpo e sensualidade, não imagina que mantém a simplicidade de dormir comigo, uma calçola de algodão, como se fosse a peça mais importante do seu guarda-roupa. Assim como atletas afirmam ter as suas cuecas de sorte, ela tem a sua calcinha da normalidade.

Vista em jatinhos fazendo caras, bocas e bundas, sua persona foi bem focada em onde a menina almejava chegar. Pode estar envolta em diamantes como também em pulseirinhas de praia, fitinhas do Senhor do Bonfim.

Permaneci com ela nessa jornada. Eu e as milhares de lingeries de renda, seda, de anjos secretos e um sem número de brilhantes referências. Só que como uma amiga confidente, na qual se acredita fielmente, permanecemos juntas. Nas noites em que busca ou necessita desvestir o mito, a cantora-empresária-modelo-apresentadora, e voltar a ser a adolescente sonhadora saída do subúrbio, ela encontra essa identificação comigo.

Eu sou a âncora. A envolvo como um abraço amigo; guardo seus tesouros do corpo: sexo e bunda. Não cubro nada, apenas protejo com minha maciez desgastada pelo tempo. A faço recordar suas raízes ao mesmo tempo que, justamente por saber de onde veio, ela quer mais – quer e merece o mundo todo. A mente e a genialidade, os outros tesouros – ah, esses descansam poucas horas do dia! Estão sempre ativas, maquinando o próximo passo da carreira, de dança, da vida.

Sua lista de fãs alcança milhões, tal qual o valor da sua marca pessoal; dos homens e mulheres que dividem seus lençóis em noites quentes ou apenas comendo pipoca na cama e assistindo filmes, só ela sabe. Mas por detrás dessa vitrine toda, há a mulher organizada, a faxineira, a gerente, a vendedora, a garota do marketing, a agente, a moça do cafezinho, a CEO. Todas elas vestindo a calçola de algodão enquanto dormem.

Quando dorme sozinha, leva consigo seus cachorros… Sei lá se se pode dizer cachorros e não pets. Adotados, presenteados, comprados, eles são a festa dela, e ela, a deles. De raça ou de rua. Fico até com medo de me rasgarem de tanto que pulam nela de felicidade. Eles se combinam, todos têm seus momentos briguentos e os de calma. Permanecem em silêncio quando ela pede e fazem muita bagunça quando permite.

Você pode ter me visualizado de cor forte, talvez um vermelho desbotado agora, mas pense: se a acompanho desde o começo da carreira, por que você não me imaginou com personagens da Disney ou apenas colorida como meias infantis?

Nada pode impedi-la de ser foda, de usar sua sexualidade nas danças e na vida real. Quem a chama de baixa, puta, vadia e outros “simpáticos” adjetivos, estou certa, se corrói de inveja ou de medo desse ser, da mulher que é e representa.

Ela dorme feito criança. Deita e apaga. Solta os cabelos e corpo em lençóis de mil fios, em quartos dos hotéis mais luxuosos, em camisolas das marcas mais renomadas ou bordadas pelas monjas virgens do Tibet, tomando água da fonte mais exclusiva das geleiras mais longínquas. Ela chegou aonde queria. E chegou lá comigo.

A menina, a personagem e a mulher se resumem num só corpo envolvido em meu algodão colorido largo, de elásticos já afrouxados que não marcam as mudanças pelo tempo. Ela se olha no espelho apaixonada com o que vê. Imagina um novo projeto, mentalmente mede a distância de onde está o resultado e vai!

Ela sempre foi. Por isso é hoje dona de si e do mundo ao seu redor.

Foto – imagem da internet

Os pombos da praça Santos Andrade

– Que merda viu! Esses pombos não respeitam nada! Estou imundo, todo cagado.

A cena se passa em uma praça muito famosa de Curitiba. Poderia ser em qualquer lugar do mundo onde pombos se encontram todos os dias, o dia todo, para roubar migalhas deixadas pessoas enquanto transitam pela cidade ou porque, essas pessoas, sem ter o que fazer, acreditam que alimentar pombos garanta a diversão do dia – delas e dos pássaros.

O combinado entre o representante das pombas, o da praça e eu, acertado já nos anos 50, foi que elas mirassem apenas as pessoas que passeiam, descansam ou estacionam nos comércios da praça. Os bancos, flores, estátuas e esculturas, pontos de ônibus e ambulantes ficariam livres da artilharia intestinal vinda do céu.

Você já viu alguém reclamando de xixi ou cocô de bem-te-vis, joão-de-barro ou sabiás? Agora pombos capricham! Parecem que se divertem muito cagando “por tudo”. Coloco aspas no “por tudo” para escancarar meu descontentamento com a desobediência civil dessas aves. Ganham de mil de fragatas nas cidades litorâneas. As fragatas, só quando estão adoentadas, saem metralhando moradores e turistas. Não vale dizer que as da Disney pintam os turistas e suas sacolas… nesse caso nada mais é do que vingança – alimentam demais ou de menos as bichinhas, enquanto passeiam com quilos de biscoitos, hot-dogs e sorvetes. Nesse caso a balança descompensa, fragata que toma muito sorvete passa mal, a que não ganha nem uma pazinha, desforra.

Mas estamos aqui na praça, eu sou Santos Andrade e existe um acordo de cavalheiros para esse ambiente. Os estudantes que vêm lagartear ao sol para ver se tiram o mofo de horas de estudo não têm onde sentar porque os bancos mesclados de branco e cinza moles… Eca! Turistas encantados com a beleza do local, marcados pelo Teatro Guaíra (às minhas costas) e Faculdade de Direito da UFPr (em frente), não mais procuram assento.

A “tia” do quentão e dos biscoitinhos nem tenta mais; traz seu banquinho de alumínio e plástico dobrável diariamente. Ela pensou em usar um lugar no início, mas sempre ocupado ou sujo. Em sua barraquinha, desde então, nunca acertaram seu material de trabalho, muito menos a banqueta. Ela agradece sem saber do pacto, mas sempre comenta “estranho isso, muito estranho!” Os pombos passam perto dela em voos rasantes, a reverenciam, e continuam mirando os passantes.

Bêbados e os sem lar que ficam horas perambulando por aqui estão cobertos pelo acordo, como em um tratado de guerra: – “… Cláusula 23 – ficam isentos de cocô no corpo e na cabeça: a) moradores de rua e os sem residência fixa que pernoitem no local; b) bêbados e drogados; c) e crianças abaixo de 8 anos de idade, independente de idade, gênero, raça; com exceção dos que provocarem as aves correndo atrás delas, jogando pedras e outros objetos…”

Casais enamorados e frequentadores apaixonados, conforme o acordo pombos- praça – estátua, cláusula 31 – estão sujeitos à penalidade, equivalente à sujeira de 15 pombos, quando de cenas de volúpia sexual e/ou violência – brigas e discussões – que perturbem a paz dos demais frequentadores. Os universitários, enquanto lendo seus livros ou papéis de estudo, não devem, tampouco, ser atingidos. Caso se perceba que fazem corpo mole, desatentos ao estudo ou assistem pornografia em público pelo celular (nova redação do tratado), a pena corresponde à cagada de 3 pombos no primeiro alerta, dobrando a pena em caso de reincidência.

As escadarias da Faculdade de Direito são área sem lei, como Las Vegas. Nesse espaço a brincadeira está liberada até um metro das portas de acesso ao prédio. Ali, as pombas podem disputar lugar nas altas pilastras greco-romanas brancas, para, aleatoriamente, acertar os quem adentra ou sai do prédio – sejam estudantes, visitantes e funcionários. Sem distinção.

Durante a semana os pombos lotam a praça. Sábados e domingos voam para o Passeio Público, a menos de 100 metros daqui. No parque, em pleno coração da cidade, não há acordo de cavalheiros. O espaço é disputado pelas pombas moradoras do local e as que vão visitar, inúmeras outras espécies de aves urbanas, esquilinhos, cachorros de rua e pets dos frequentadores (canídeos e, de vez em quando, felinos em coleira), pipoqueiro, vendedor de balões e alguns de viagens, calangos, borboletas, e muitos humanos (um pequeno número deles não tão humanos, mas da espécie).

Hoje é quinta-feira, continuo a olhar fixamente para o prédio. Pombos estão na minha cabeça, em meu braço esticado e aos meus pés. Há duas horas, quatro pombos que voaram para longe, depois da brincadeira, apostaram quem faria a maior lambança na minha cabeça. Quis gritar, espernear, mas estátuas não esperneiam, não reagem. Estou sujo, fedido e puto. Muito puto. Terei que convocar um novo conselho da praça. Não aguento mais tanto desrespeito!

Texto de 12/01/2022

O espelho na sala de estar.

Embora parado e enquadrado na parede, impossível negar meu envolvimento nessa casa. Não há quem passe por mim e não dê um lampejo do olhar. Há quem ajeita a roupa, o cabelo, a maquiagem ou aproveita e confere os brincos e dentes. Algumas vezes em um rodopio total, devagar, à minha frente, se permitem olhar de corpo inteiro.

Através de mim trabalham seus próprios estados de espírito, as perfeições e imperfeições de suas imagens. Permito que percebam do fio de cabelo fora do lugar ao desalinho dos próprios pensamentos.

Reflito o vagar das horas, a iluminação do dia e a falta dessa à noite embora de modo imperceptível, já que, ao acender as luzes, o reflexo do manto negro sobre o tempo se desfaz.

Imperceptível também é como esse reflexo que vagueia na minha transparência prateada nada mais é que a imagem do que cada um imagina para si e para o ambiente. Veem cores diferentes, ângulos diversos, exposições únicas do segundo antes de piscar os olhos. O reflexo fotográfico, imóvel, muda a cada instante.

Algumas situações se repetem cotidianamente e marcam o vidro: o beijo de despedida matinal das pessoas que, sempre apressadas, desfazem a cena para partir um minuto mais cedo para qualquer atividade; o relógio cuco na parede que de hora em hora abre sua portinhola e deixa o soldado bater no metal o número das horas nessa contínua anunciação do passar do tempo; a janela do ambiente sendo aberta todos os dias para a brisa alcançar a sala toda e perfumar o ambiente com a fragrância da manhã; e a mesa posta para o almoço em família, cena que deve acabar quando os filhos deixarem a casa. Ao final do dia, quem quer que seja o último a ir dormir, fecha as folhas de vidro, passa a tranca, cerra as cortinas e apaga a luz. Sem luz, apago imagens.

De vez em quando sinto borrifos de água fresca e um pano me seca. E, sempre – sempre mesmo – quem me banha sorri para si mesma imaginando sorrir para mim, certa que a refrescância dessa ducha rápida me faz bem.

Reflito a organização da casa e a desorganização dos pensamentos, outras vezes, a desarrumação da casa e a arrumação do pensamento de cada um deles. Sou inteiro e vazio, sou o verso e o anverso de tudo e todos.

Ocasionalmente um dos passantes se assusta com o que percebe refletido. Os olhos abrem e o olhar faz machucar o íntimo. Do mesmo modo, às vezes, exercícios faciais no espelho constroem um sorriso em quem se dedica a eles. Não tem como não rir das próprias bocas e caretas.

Embora comum, numa moldura que nem faz grande decoração, sou a peça mestra da casa. Mais que chave, portas, geladeira. Eu sou cada um dos moradores desse lar, seus humores, seus reflexos. Mostro o máximo que alcanço em todos os ângulos e direções. Sou metamorfose fosca ao mesmo tempo que brilhante. Transparente e simultaneamente opaca. Viva ainda que sem vida.

Não faço memória. As imagens refletidas se desfazem em micro instantes, enquanto permito que cada um dos que fizeram vista aqui guarde suas próprias lembranças do que viu espelhado em si mesmo.

  • /Texto – Giana Benatto em 07/01/22
  • Imagem – internet

Celebrando 6.0

Querida Giana, tudo bem?

Há quanto tempo que não nos falamos. Estou te escrevendo hoje para te parabenizar pelos seus 60 anos. E aí, vai ter festa?

Ouvi dizer que este ano você não está com vontade de festejar, que anda meio desanimada e que desejava não comemorar esta data. Posso perguntar o por quê?

Há muito tempo você não vem escrever no gicapinica, não é mesmo? Você lembra quem era, ou melhor, é a gicapinica?

Talvez eu (gicapinica) esteja dormente em você, ou ainda, que você tenha se tornado uma nova gicapinica, tudo é possível… Recorda que a gicapinica era uma menina tímida, deslocada, ao mesmo tempo que prestativa e acolhedora? Como é você hoje em dia? Já vi relatos que a timidez deu lugar a uma mulher que não pode ver um microfone, um púlpito, ou um tablado, que por conta de ter lecionado alguns bons anos, perdeu a vergonha de falar em público, independentemente de qual seja ele… Uau, você superou o maior temor da era moderna – o de falar em público, e isso não é pouca coisa!

E o deslocada, melhorou? Não muito? Me deixe te falar uma coisa: Quem nunca? E mais, essa sensação pode ser apenas sua, interior, porque pelo lado de fora, quem se preocupa com isso? E, pelo que sei, pessoas jamais te imaginariam deslocada.

Você lembra dos sonhos que tinha quando menina? Vou te contar que acredito que não lembre de muitos. Sabe por qual motivo? Porque você sempre foi tão prática, tão exigente consigo mesma e tão voltada a resolver tudo para você e quem estava ao seu redor, que não havia tempo para sonhos. A vida ia acontecendo e você resolvendo… Conseguiu mudar em algum aspecto ao longo dos anos? Quero saber.

Mas voltando aos 60 anos, o que está acontecendo que você pensou em não comemorar, nem que seja com um bolinho em casa?

Olhe para trás e faça o exercício que você tanto faz com os outros… Reconheça a sua jornada! Sabe como fazer? Bora lá…

  1. Escreva numa folha o que você gosta de fazer; o que você faz que ainda não goste tanto, mas sabe que é importante para alguém que você quer bem.
  2. Escreva sobre suas pequenas realizações diárias, elas importam muito porque são frequentes, e a soma delas pode transformar o mundo!
  3. Escreva sobre seus novos projetos e se não os tem, escreva sobre algum que você gostaria de começar, nem que seja aprender a como pensar em realizar projetos…
  4. Escreva sobre elogios que pessoas te fizeram. Sobre o que eram? Sua voz, seu cabelo, o pudim da sobremesa, sobre os livros que escreveu nesses últimos anos. Escreva e leia o que escreveu! Sinta a verdade e o carinho que as pessoas te transmitem. E se recebeu críticas, não escreva sobre elas agora, deixe-as no canto e separe o que é verdade, o que te serve, e o resto, descarte da mente e do coração. Aprenda com elas sem se prender a elas… Ao contrário, prenda, esteja perto das boas vibrações, de bons sentimentos e pessoas.
  5. Escreva sobre o que você vem construindo com dedicação, sobre o que vem aprendendo, tentando, conhecendo. Reconheça o valor de cada detalhe. Se reconheça neles.

Gi, já parou para pensar que o Vivazidade, o mindfulnes_se foram criados para ajudar pessoas e que o caminho que você trilhou te trouxe a eles? Lembra como você mudou nesses últimos 5 anos? E que o percurso tem sido de grandes descobertas? Celebre-as, celebre-se, ainda que sem festa, rojões e fogos de artifício.

Ficar triste é um direito seu. Mas não celebrar vai ser um erro, até porque depois você vai olhar para trás e ficar sem uma memória desta marca 6.0. Ainda mais você, que sendo quem é, sempre amou comemorar aniversário e nunca escondeu a idade.

Gi, celebre seus 6.0, sente na praça e faça uma oração, dedique ao seu melhor, a quem você é. Sente na rede na sacada e brinde, nem que seja com água com gás, o tempo, a idade, a vida. A sua vida!

Eu estarei aqui, esperando sua resposta, suas fotos, e seu sorriso. Afinal se tem algo que todo mundo lembra de você é o sorriso aberto e franco! Vem antes da voz grave e dos cabelos ouriçados…

Giana, celebre a Gi, a Gica, a Gicapinica, a Professora, a Doutora, a amiga, a mãe, a esposa, a tia, a Joana, a Geane, a Diana, a Jane (todas as pessoas que você pode ser com este nome que parece difícil).

Comemore sua idade, sua vida! Honre seu passado, homenageie seu presente e Construa seu futuro!

Com todo amor, eu

Gicapinica

A diferença entre “ser forte”e “ter a força”

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Semana passada em uma conversa fui salva pelo He-Man, lembra dele?

Embora fosse um herói de quadrinhos, o conheci somente depois do  lançamento do desenho animado na década de 80 e confesso que parava o que quer que estivesse fazendo para assistir. He-Man personificava o alter-ego do príncipe Adam de Eternia.

Adam era um adolescente normal, de compleição física um pouco musculosa, que andava pelo reino de Eternia sempre acompanhado de seu gato Pacato, um felino medroso embora de bom tamanho. Por questões que não cabem aqui neste artigo, o príncipe Adam havia recebido poderes da feiticeira Teela-Na, para proteger o reino das vilanias do Esqueleto, a personificação do Mal.

Nos momentos de lutar contra o mal, ele – Adam – erguia sua espada aos céus e proclamava: “Pelos poderes de Grayskull” e se transformava em He-Man, um herói musculoso e destemido, que para completar o ciclo ainda proclamava o “Eu tenho a força”, quando então se sentia pronto para combater o mal, acompanhado do Gato Guerreiro, nova personalidade do gato Pacato, ao ser tocado pela espada mágica de He-Man.

Fecho a explicação e volto ao primeiro parágrafo onde fui salva pelo He-Man. Conversávamos sobre os obstáculos que buscamos superar na vida e o quão fortes precisamos ser para não esmorecermos, quando questionei: mas ser forte é o mesmo que ter força?

A partir deste ponto passei a divagar. Expus que entendo que ser forte é lidar com a situação momentânea com destemor. É ter o corpo preparado para receber os golpes certeiros que a vida dá e a mente alerta para perceber de onde os mesmos vêm. E sim, podemos ser fortes em determinados momentos e em outros de uma fraqueza monumental. Contudo o mais importante para mim é ter “a força”. Nesse sentido A Força pode ser comparada à fé, esperança.

E me lembrei do He-Man.

Ter força ou A Força é confiar que algo maior te protege e te dá energia suficiente para combater todo o Mal. Seja ele em todas as suas formas – obstáculos externos, ações, palavras, energias negativas, pessoas e suas vilanias.

Ter A Força é acreditar em um poder maior, que nos é repassado por uma ‘feiticeira’, por um amuleto, pela religião, pelo coração. Não se explica, embora sintamos a sua presença e proteção.

Ser forte não é necessariamente ter músculos. Conheço homens musculosos que têm medo de barata, e sei de mulheres minúsculas que moveram montanhas de entulhos para salvar um filho e que, quando perguntadas, não sabem explicar de onde veio esta força.

Entendo que todos nós podemos ser fortes, física, mental e espiritualmente. Porém, mais do que ser forte, é fundamental nos conhecermos para saber onde encontrar A Força, ainda que não haja um Pacato ao lado para se transformar no Gato Guerreiro.

Gritar “Eu tenho a Força!” é poderoso. A energia emanada desta confiança envolve e dá a certeza de que não lutamos sozinhos. Somos nós e este poder interno, qualquer que seja o nome que, você leitor, entenda justo para reconhecê-lo.

 

*Publicado dia 01/10/18  –

https://osegredo.com.br/a-diferenca-entre-ser-forte-e-ter-a-forca/

QUEM EU SOU?

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Acabaram de me perguntar: Quem é você?

A primeira resposta soou como uma qualificação jurídica: Nome, estado civil, profissão, idade, filiação.

A cara de espanto de quem me perguntou me demonstrava que não era bem essa a resposta que ele esperava e calmamente me deu alguns minutos para eu refazê-la.

Pergunta cabulosa, pensei eu. Quem eu sou?

Sou tanta coisa e não sou nada. Sou a soma de muitas histórias, boas ou não, felizes ou dramas mexicanos. Sou o resultado de muitas verdades subtraindo inúmeras mentiras. Sou força multiplicada exponencialmente quando atingem os meus; a divisão entre corpo e mente ao assumir vários papéis.

Sou alguém que conheço há muito – aptidões e defeitos e, ao mesmo tempo, tão aberta a novas descobertas, que me percebo como uma verdadeira desconhecida de mim mesma.

Sou vela que se adequa ao vento dando nova direção, assim como sou o leme que determina o caminho a seguir.

Sou água que contorna obstáculos e, ao mesmo tempo, sou onda forte quebrando ao encontro do rochedo, esfacelando a pedra continuamente.

Sou grama que balança com a brisa. Sou flor que dura poucos dias. Sou espinho que fere precisamente quem não se cuida ao mexer em meus galhos. Sou pétala fácil de ser arrancada, assim como sou raiz que sustenta a estrutura firmemente ao chão.

Sou o devaneio da poesia. Sou dicionário na certeza da palavra.

Sou almofadas largadas enfeitando a cama. Sou a cabeceira que segura o móvel.

Sou cortina que esconde a luz, bem como a luz que a cortina esconde.

Sou tempestade de raios e trovoadas; sou o sol abrasador do meio-dia.

Num momento sou riso fácil, abraço quente, olhos inundados de lágrimas. Em outros, mão firme, olhar direto, impenetrável.

Sou carta de tarô facilmente decifrável ou mapa meteorológico tomado de surpresa com a entrada de uma frente fria imprevista.

Ele continuava a me olhar, entre intrigado e descrente de mim.

Ainda assim, não era a resposta que ele esperava?

Quem eu sou?

Como dizer –lhe que sou o que ele quer que eu seja? Que eu sou o reflexo do que ele me espelha?

O que hoje sou hoje, não define quem eu fui ontem, apenas constrói quem serei amanhã e ainda assim, incerto.

Sei que ao final, ainda sem concordar, ele pensou que seria mais fácil preencher os campos da folha em branco que segurava, com a qualificação inicialmente dada.

 

 

VIVER E NÃO TER VERGONHA DE SER FELIZ

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Viver e não ter a vergonha de ser feliz/ Cantar e cantar e cantar / A beleza de ser
um eterno aprendiz…” Será que existe quem não cante junto quando escuta este “hino” do Gonzaguinha?

Eu não consigo e penso que se tal pessoa existe, no mínimo, os pés dela se movimentam no ritmo da música, escondidos embaixo da mesa.

O que é ser feliz? Talvez não consigamos definir o que é ‘ser feliz’. Felicidade e ser feliz são conceitos que mudam de pessoa para pessoa; variam no tempo, espaço, cultura e com a idade. Entretanto, em qualquer destas situações, sabemos diferenciar felicidade da infelicidade.

Penso que felicidade e ser/estar feliz são coisas distintas, mas resultantes da energia positiva interna de cada um. O externo contribui, mas não as determinam.

Aprendi com o tempo que cultivar alguns comportamentos auxilia a criar um entorno de energia positiva, e o resultado disso, felicidade interna. Não estou falando de dinheiro, riquezas e bens. A felicidade a que me refiro é de espírito, de alma, do coração.

Primeiro: deixar de ser urubu e ser águia. Não me alimentar de tristezas, carcaças e lixo alheio, ao contrário, voar alto e determinada. Buscar bons alimentos para o corpo e espírito. E sim, comer um x-tudo de vez em quando, pode ser a felicidade do dia – só para demonstrar o contexto.

Ser luz. Tentar perceber e me manter afastada de quem me suga energia, consome meu tempo e desrespeita meu dinheiro. Ao mesmo tempo, me exercitar para não ser eu quem suga energia, tempo e dinheiro alheios. Me permito sentir as dores e contragostos do dia-a-dia, mas não tolero permanecer a remoê-las e fazer disso objetivo de vida. Me proibi de escarafunchar notícias de desgraças que não me dizem respeito. Já dá muito trabalho cuidar da minha própria vida.

Procurar manter acesa a chama do amor-próprio como quando me preparei para meu primeiro encontro amoroso. Ver o meu melhor refletido no espelho. Ter o olhar confiante ainda que no rosto amarrotado, sem, no entanto, esquecer jamais do meu perfume.

Buscar respeitar a natureza e através dela perceber as estações e a normalidade do ciclo da vida – nascimento, florescimento, ressecamento, reflorescimento, assim sucessivamente até murchar e morrer. Ciclos contínuos ou descontinuados, porém naturais.

Tentar oferecer meu ombro, ouvidos, meu coração e principalmente – meu tempo – a quem precisa. Poucas palavras, muito abraço e aconchego. Menos juiz, mais abrigo.

Pus nesta minha cartilha o hábito de tentar criar boas lembranças para quem convive comigo. Distribuir sorrisos e elogios sinceros como se fossem flores de um jardim. Tomara que o vaso de cristal onde tais flores serão expostas seja a memória de quem as recebe.

Sei que tenho dias em que estou azeda, virada para o mundo. Assim como não gosto de rabugice, reclamações, baixa autoestima e baixo astral alheios, ninguém tem obrigação de aguentar a minha. Nestes momentos o recolhimento é impositivo, e,  no meu cantinho trabalhar para buscar o lado positivo das experiências, por mais dolorosas que sejam.

Com um pouco disso acredito poder continuar cantando ou balanço os pés, terminando os lindos versos:
“Eu sei, eu sei/ Que a vida devia ser bem melhor e será/ Mas isso não impede
Que eu repita: É bonita, é bonita e é bonita”.

 

*Publicado no site osgredo.com.br em 27.07.18 – Energia positiva de cada um

 

DESLIGAR PARA CONTINUAR LIGADA

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Há pouco recebi um e-mail de uma amiga, blogueira de viagens, avisando que estava seguindo para o Amazonas e que estaria desligada das redes sociais por alguns dias, por falta de sinal, mas também para se “reconectar, limpar, repensar, revisar, enxergar, escutar, observar, entender… simplesmente pensar ou simplesmente deixar de pensar!”

Ela está indo longe para isso. Faz parte da vida dela e do propósito que busca. Viajou para ganhar uma experiência de vida e na volta  dividir conosco o que viu e o que passou. Não que Amazonas seja tão distante assim, para quem, como ela, já viajou o mundo todo. Estar distante nesse caso é a separação física e mental que todos precisamos para, como ela mencionou, nos reconectarmos, repensarmos, observarmos e entendermos. E, este foi o mote para o texto de hoje.

Algumas pessoas se aproveitam do autoconhecimento. Reconhecem quando necessitam reformular suas rotas; redefinir seu rumo, seja por alterações bruscas ou tomada de decisões bem pensada, pesada e analisada.

Outras partem para este reencontro após uma crise grave. Crises de relacionamento, doença ou morte de alguém próximo mexem com o íntimo tão profundamente que é necessário chafurdar na lama por um período para então ressurgir como uma for de lótus. O luto da situação mesclado ao renascimento próprio.

Outras ainda são levadas pelo acaso, como se ao se olharem no espelho vissem refletido um nada – a não imagem, e a partir de então, percebem a necessidade de se reconstruírem.

Pontos em comum desta busca? Desligamento do corpo e da mente da superficialidade. Afastamento de energia negativa – seja de pessoas, objetos e pensamentos. Introspecção.

É uma tomada de decisão para uma longa e profunda viagem interna. Conhecer mais detalhadamente seu próprio pensamento; repensar suas ações/reações; revisar comportamentos; destruir crenças ou tomar decisões. Ter seu momento de epifania.

Qual é este tempo? Cada um determina o seu. Pode ser uma tarde sozinha em casa – sem televisão, internet, filhos, marido, cachorro e papagaio – apenas com foco: repensar a própria história, a própria vida. Rever os caminhos trilhados e traçar novas rotas. Mergulhar no mais fundo do próprio ser para se ‘re-conhecer’.

O importante, nesse momento, é não ter obrigação de atender quem quer que seja,  a não ser os próprios desejos. Não dar satisfação, atenção ou ouvir o que não seja seu próprio coração e sua intuição. Dar-se  o tempo necessário para observar o entorno com atenção, reconhecendo sinais, absorvendo seu sentido.

E se uma tarde não for o suficiente e não dispuser mais tempo deste afastamento, permitir-se um tempo diariamente para, em tranquilidade, fechar os olhos e respirar, lenta e pausadamente, em estado meditativo, com intenção e atenção voltadas apenas a si própria. E, a partir dai prestar atenção aos sinais do Universo.

Perceba-se. Reconstrua-se. Reaprenda. Permita-se desligar para continuar ligada.

 

*Publicado em 19.06.18 no site osegredo.com.br – Desligar para continuar ligada